Foto: NASA
EL NIÑO NO EQUADOR
Por Mateus Almeida Melo
O El Niño é o nome dado a um fenômeno atmosférico-oceânico que ocorre periodicamente no Oceano Pacífico Equatorial, afetando o clima global. É caracterizado pelo aquecimento das águas superficiais do Pacífico, fazendo com que sua temperatura atinja números superiores à média histórica ao longo da costa do Peru e Equador. O termo “El Niño” tem origem espanhola e significa “O Menino”, em referência ao nascimento de Cristo, pois foi inicialmente observado em épocas próximas ao Natal por pescadores peruanos e equatorianos.
Conforme a observação destes pescadores, acreditava-se que o fenômeno estava associado a um aquecimento anual das águas costeiras naquela região. Porém, a evolução das pesquisas sobre o fenômeno revelou que o El Niño está associado a um evento climático mais extenso e anômalo do que o previamente pensado, causando mudanças significativas no padrão climático em várias partes do mundo. Nesse sentido, a mudança na temperatura do oceano Pacífico Equatorial acarreta efeitos globais na circulação atmosférica, aumentando a incidência de chuvas e a formação de ciclones tropicais no Oceano Pacífico. (TRENBERTH, 1997)
No Equador, o fenômeno tem sido historicamente associado a fortes chuvas e inundações que afetam todo o país, tornando-se um alerta significativo para o poder público. Entre os anos de 1997 e 1998, o país passou por um significativo evento de El Nino, que causou grandes prejuízos econômicos ao país. As inundações generalizadas e as chuvas torrenciais causadas pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico afetaram a infraestrutura de todo o país e tiveram fortes impactos na população mais vulnerável (RELIEFWEB, [s.d.]).
Além dos impactos imediatos, o evento teve consequências econômicas significativas. O setor agrícola foi especialmente afetado, com perdas na produção de cultivos e na pecuária. Isso teve um impacto direto nas comunidades rurais dependentes da agricultura. O setor pesqueiro também sofreu impactos, com perdas na distribuição e na disponibilidade de espécies marinhas.
Desde então, o governo equatoriano, com o apoio de organizações internacionais, têm buscado melhorar suas medidas de preparação e resposta a eventos de El Niño. O objetivo é reduzir os impactos negativos e aumentar a resiliência do país diante desses eventos climáticos. Isso inclui o desenvolvimento de planos de contingência, o fortalecimento das capacidades de resposta emergencial, a construção de infraestrutura resiliente e o aprimoramento dos sistemas de alerta precoce.
Segundo dados recentes adquiridos via satélite e publicados pela Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço dos Estados Unidos da América (NASA) já é possível perceber sinais de formação do El Nino ao longo do oceano. Essas correntes observadas vêm em direção à costa oeste da América do Sul. Com esses dados, nota-se que o primeiro país a receber este fluxo é o Equador, com previsão de chegada para o início de setembro de 2023 (GREICIUS, 2023).
Diante disso, o governo equatoriano, com o apoio de organizações internacionais, têm buscado melhorar suas medidas de preparação e resposta a eventos de El Niño. O objetivo é reduzir os impactos negativos e aumentar a resiliência do país diante desses eventos climáticos. Isso inclui o desenvolvimento de planos de contingência que visam impedir que enchentes obstruam as vias ferroviárias e rodoviárias, focando em áreas que apresentaram maiores deficiências durante o El Nino de 1997. (EL DIARIO, 2023)
A Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) também já está se preparando para responder aos possíveis impactos de furacões, chuvas intensas, enchentes e deslizamentos de terra na América Latina e no Caribe. Entre as ações tomadas pela organização da ONU estão o fortalecimento da rede hospitalar, o desenvolvimento de planos de evacuação, o estoque estratégico de equipamentos médicos e a capacitação de profissionais de saúde. Tendo em vista o potencial de ocorrência desses eventos associados ao El Niño, é necessário fortalecer o setor de saúde, de forma a aumentar a prontidão e a capacidade de resposta nos países afetados. (ONU, 2023)
César Rohon, ministro de Transporte e Obras Públicas do Equador, declarou que as ações devem partir da articulação entre diferentes pastas do governo e da sociedade civil para a redução dos impactos econômicos e sociais do fenômeno El Niño. Reconhecendo a necessidade de fortalecer a infraestrutura do país para enfrentar os desafios do evento climático, o governo equatoriano destinou um orçamento de 150 milhões de dólares para a implementação de medidas de preparação.
Para financiar essas ações emergenciais, o Equador obteve um empréstimo do Banco Central com taxa fixa e prazo de vencimento de 20 anos. Esse financiamento permitirá ao país investir na melhoria da infraestrutura existente, na construção de novas estruturas resilientes, na compra de equipamentos e kits de emergência (WORLD BANK, 2023).
“Depois de 30 anos, o Banco Mundial concedeu novamente ao Equador um empréstimo para infraestrutura rodoviária. Hoje, seu Conselho de Administração aprovou US$ 150 milhões para responder a emergências de infraestrutura e transporte” (CESAR ROHON apud WORLD BANK, 2023)
Ainda em sua declaração, o político equatoriano, ex-membro do Partido Social Cristão e parte da ala conservadora de direita do governo do Equador, destacou que cabe à população “pedir a Deus que pare de chover, e se vier o El Nino, que venha com calma”. A fala de Rohon evidencia a presença da fé e da crença religiosa na política equatoriana. O país possui maioria católica e um Estado laico. (EL DIARIO, 2023)
Em resumo, o governo equatoriano está adotando uma abordagem abrangente em relação ao El Niño. Além disso, o desastre de 1997 evidenciou a vulnerabilidade da infraestrutura do Equador diante das fortes chuvas e inundações, destacando a necessidade de respostas rápidas e eficientes. Reconhecendo os possíveis impactos econômicos e sociais causados pelas fortes chuvas e inundações associadas a esse evento climático, o governo e as organizações internacionais têm se dedicado a fortalecer a infraestrutura do país e a preparar-se para lidar com os desafios decorrentes.
REFERÊNCIAS
EL DIARIO. Alistan planes de contingencia ante la llegada del fenómeno El Niño. Disponível em: <https://www.eldiario.ec/centro/alistan-planes-de-contingencia-ante-la-llegada-del-fenomeno-el-nino/>. Acesso em: 16 jun. 2023.
EL DIARIO. Rohon sobre el fenómeno El Niño: “Hay que pedirle a Dios que deje de llover”. Disponível em: <https://www.eldiario.ec/centro/ministro-cesar-rohon-hay-que-pedirle-a-dios-que-deje-de-llover/>. Acesso em: 16 jun. 2023.
GREICIUS, T. International Sea Level Satellite Spots Early Signs of El Niño. Disponível em: <https://www.nasa.gov/feature/jpl/international-sea-level-satellite-spots-early-signs-of-el-nino>. Acesso em: 15 jun. 2023.
ONU. Agência da ONU ajuda países nas Américas a se preparar para estação de furacões | ONU News. Disponível em: <https://news.un.org/pt/story/2023/06/1815842>. Acesso em: 16 jun. 2023.
RELIEFWEB. El Niño in 1997-1998: Impacts and CARE’s Response – World. Disponível em: <https://reliefweb.int/report/world/el-ni%C3%B1o-1997-1998-impacts-and-cares-response>.
TRENBERTH, K. The Definition of El Niño. Bulletin of the American Meteorological Society, v. 78, n. 12, p. 2771–2778, 1997.
WORLD BANK. Ecuador Will Receive US$150 Million from the World Bank to Respond to Natural Hazards that Affect Transport Infrastructure. Disponível em: <https://www.worldbank.org/en/news/press-release/2023/06/12/ecuador-recibira-150-millones-dolares-banco-mundial-responder-eventos-naturales-que-afecten-infraestructura-transporte>. Acesso em: 16 jun. 2023.
