Legados do colonialismo e dívidas públicas: A crise financeira no Senegal
Data: 16/09/2026
Por Bianca Souza Rosa

Fonte: Reuters, 2026
Em 1987, durante um discurso na sede da Organização da Unidade Africana (hoje União Africana), em Adis Abeba, o então presidente de Burkina Faso, Thomas Sankara, atribuiu a crise da dívida externa africana ao passado colonial. Para Sankara, os credores do continente eram os mesmos que o haviam colonizado e que, por muito tempo, controlaram seus Estados e economias. Portanto, os próprios colonizadores seriam os responsáveis pelo endividamento da África (De Souza, et al., 2025)
A realidade dos países africanos não mudou muito após quase 40 anos do discurso de Sankara. Nessa conjuntura, desde 2024, o Senegal atravessa uma grave crise financeira, sendo considerado um dos países mais endividados do continente africano. Logo após Bassirou Diomaye Faye assumir a presidência, em abril de 2024, veio à tona que o governo de Macky Sall (2012–2024) havia escondido da população e do FMI uma grande quantidade de obrigações financeiras, entre elas empréstimos não declarados, que somavam 25,3% do PIB do país. Esse episódio revela os limites de um modelo de desenvolvimento dependente de recursos externos (Brasil de Fato, 2026).
A trajetória de endividamento senegalesa ajuda a explicar a crise atual. Desde 2009, o país recorreu de forma recorrente à emissão de eurobônus, movimento que se intensificou a partir de 2014, com a adoção do Plano Senegal Emergente pelo governo de Macky Sall. O resultado foi o aumento da participação de credores privados na dívida soberana e, consequentemente, do custo de seu serviço. A dívida oculta expõe não apenas a ausência de transparência, mas também a fragilidade dos mecanismos de supervisão institucional. (Heinrich-Böll-Stiftung, 2025).
Em novembro de 2025, o Senegal encontrava-se em impasse com o FMI em torno de um novo programa de resgate, considerado indispensável para cobrir o déficit das contas públicas. Enquanto o Fundo condicionava o socorro a uma reestruturação da dívida, o governo senegalês, recém-rebaixado para uma posição profunda na categoria especulativa, resistia à proposta. O ponto central do conflito era a reestruturação. Segundo o primeiro-ministro Ousmane Sonko, a missão do FMI teria recomendado que o país trocasse a dívida antiga por novos títulos com prazos maiores, juros menores ou valor reduzido, proposta que ele rejeitou publicamente. De acordo com Paul Melly, da Chatham House, Sonko se opunha à medida por não querer contrariar a promessa de campanha de 2024 de restaurar a soberania senegalesa (Al Jazeera, 2025).
Depois de dois anos de resistência do governo senegalês às propostas do FMI, recentemente, em setembro de 2026, o Senegal e o fundo chegaram a um acordo para um pacote de empréstimo de US$2,2 bilhões com duração de três anos. O acordo exige que o Senegal tome “medidas corretivas decisivas” para dar suporte ao seu pedido de isenção relacionado à dívida declarada incorretamente (Reuters, 2026).
Referências
AL JAZEERA. Why is Senegal squaring up to the International Monetary Fund? 28 nov. 2025. Disponível em: <https://www.aljazeera.com/economy/2025/11/28/why-is-senegal-squaring-up-to-the-international-monetary-fund>. Acesso em: 19 set. 2026.
BRASIL DE FATO. O Senegal está à beira do colapso. 07 abr. 2026. Disponível em: <https://www.brasildefato.com.br/colunista/vijay-prashad/2026/04/07/o-senegal-esta-a-beira-do-colapso/>. Acesso em 18 set. 2026.
DE SOUZA, Jéser Abílio; NASCIMENTO, Dora Meireles Gesteira; DE OLIVEIRA REIS, Bruna. Fardos coloniais e a dívida externa como ferramenta de dominação sobre países africanos. InterAção, v. 16, n. 5, p. e94104-e94104, 2025. Disponível em: <https://periodicos.ufsm.br/interacao/article/view/94104>. Acesso em: 18 set. 2026.
HEINRICH BOLL STIFTUNG. Hidden Billions: The Scandal of Senegal’s Concealed Public Debt. 16 nov. 2025. Disponível: <https://www.boell.de/en/2025/11/16/hidden-billions-scandal-senegals-concealed-public-debt>. Acesso em: 23 set. 2026
REUTERS. Senegal’s hidden debt crisis and attempts to resolve it. 02 set. 2026. Disponível em: <https://www.reuters.com/world/africa/senegals-hidden-debt-crisis-attempts-resolve-it-2026-09-01/>. Acesso em 17 set. 2026.
Costa do Marfim intensifica combate à mineração ilegal de ouro
23/09/2026
Por Júlia Marini Fernandes

Fonte: AFP, 2026
Frente à expansão da mineração ilegal de ouro, o governo da Costa do Marfim tem buscado retomar o controle desse fenômeno, que atualmente afeta 29 das 31 regiões do país. Na quinta-feira, 17 de setembro, sob a presidência de Alassane Ouattara, o Conselho de Segurança Nacional (CSN) determinou a implantação de medidas mais rigorosas que foquem no combate à economia da mineração ilegal, indo além de operações de campo.
Entre as principais medidas está a criação de 21 pelotões de segurança fluvial para garantir a vigilância dos quatro principais rios do país, o Comoé, o Bandama, o Cavally e o Sassandra, visando dificultar que atividades ilegais se desloquem rapidamente de um local para outro. Além disso, a emissão de novas licenças para mineração será suspensa por seis meses para que o governo fortaleça a fiscalização e melhore a organização do setor aurífero.
O Grupo Especial de Combate à Mineração Ilegal de Ouro (GS-LOI) terá um aumento no número de brigadas operacionais e será implementada uma nova lei que aumenta a pena para crimes relacionados à mineração ilegal de ouro, com a cumplicidade logística ou financeira constituindo um crime à parte. Essa nova abordagem busca rastrear a cadeia desde a origem até os atores que financiam as operações e facilitam a venda do ouro.
Também estão previstas atividades geradoras de renda para que os garimpeiros marfinenses façam uma transição gradual para fora da mineração ilegal, que pode servir como fonte de financiamento para grupos armados. Com os preços do ouro em alta e a demanda em constante crescimento, o controle da produção ilícita se torna cada vez mais importante tanto para a arrecadação do governo quanto para a proteção ambiental e a segurança nacional.
As perdas econômicas ligadas à mineração ilegal de ouro atingiram proporções alarmantes. Com a venda ilegal de quase 142 toneladas de ouro, a perda de receita tributária é estimada em 4,6 trilhões de francos CFA por ano, privando o Estado de recursos essenciais para seus projetos de desenvolvimento. Assim, apesar da dificuldade de reprimir a mineração ilegal, que vai além das fronteiras do país da África Ocidental, a implantação de medidas mais rigorosas se mostra essencial para garantir que o país capture uma parcela maior da riqueza gerada por seus recursos auríferos.
FONTE:
HOUNGBADJI, Cochimau. Costa do Marfim – Mineração ilegal de ouro: nova repressão. 8 de junho de 2026, Afrique sur 7. Disponível em: https://www.afrique-sur7.fr/cote-divoire-orpaillage-illegal-nouveau-coup-de-filet. Acesso em: 19 set. 2026.
InCotê d’Ivoir. Costa do Marfim: Mineração ilegal de ouro drena bilhões da economia. S/d. Disponível em: https://www.incotedivoire.net/economic/new/C%C3%B4te%20d%E2%80%99Ivoire:%20Illegal%20gold%20mining%20drains%20billions%20from%20the%20economy. Acesso em: 18 set. 2026.
OUITONA, Sérgio. Costa do Marfim: Abidjan mira financiadores e rios na luta contra a mineração ilegal de ouro. 17 de setembro de 2026, Afrik. Disponível em:https://www.afrik.com/cote-d-ivoire-contre-l-orpaillage-clandestin-abidjan-cible-les-financiers-et-les-fleuves. Acesso em: 18 set. 2026.
TOSSOU, Emiliano. As redes por trás da mineração ilegal de ouro na Costa do Marfim. 19 de agosto de 2026, Ecofin agency. Disponível em: https://www.ecofinagency.com/fils-home-uk/1908-58207-the-networks-behind-illegal-gold-mining-in-cote-d-ivoire. Acesso em: 18 set. 2026.
Petrobras assina acordos de Partilha de Produção para explorar territórios com potencial comercial na Costa do Marfim
Data: 30/09/2026
Por Luíz Fernando Diniz Sousa

Fonte: Agência Petrobras, 2026
No último dia 17, a Petrobras anunciou, junto da estatal marfinense Petroci Holding, Contratos de Partilha de Produção para oito blocos exploratórios offshore localizados na República da Costa do Marfim. A estatal brasileira, por meio da PNBV (filial na Holanda), que será detentora de 90% da operação nos blocos, enquanto a marfinense ficará com os outros 10%. Essa aquisição pode ser lida como parte de um plano de internacionalização da empresa, uma vez que essa já atua em outros países da África, especificamente Namíbia, São Tomé e Príncipe e África do Sul, além de Argentina, Bolívia, Colômbia e Estados Unidos, no continente americano. Um comentário postado em seu site oficial no dia da assinatura dos acordos corrobora com essa narrativa: “Esta iniciativa está alinhada à estratégia da Petrobras de recomposição das reservas de óleo e gás por meio da exploração de novas fronteiras, tanto no Brasil quanto no exterior, conforme previsto em seu Plano de Negócios” (PETROBRAS, 2026).
Por outro lado, a Costa do Marfim enxerga com bons olhos a chegada de capital estrangeiro em um setor estratégico. Com a exploração dos 8 blocos offshore, a base sedimentar nacional sob exploração agora chega em 75%, o que NJ Ayuk, Presidente Executivo da Câmara Africana de Energia, avalia de forma positiva: “A decisão da Petrobras de se comprometer com oito blocos offshore é um forte voto de confiança no potencial do upstream da Costa do Marfim e na capacidade do país de atrair investimento sério e de longo prazo” (AYUK, 2026). Ademais, reforçou que o continente precisa de investimentos semelhantes e que estes são imprescindíveis para o desenvolvimento de suas nações: “A África precisa de mais exploração, mais investimento e mais projetos que traduzam recursos naturais em empregos, receitas, infraestrutura e energia confiável. A Costa do Marfim está demonstrando que um setor de upstream competitivo pode atrair empresas globais de energia enquanto cria oportunidades para empresas africanas participarem da cadeia de valor” (AYUK, 2026).
Por fim, vale ressaltar que, apesar dos acordos, a exploração ainda está em seus estudos iniciais, o que sequer confirma um potencial comercial relevante para que se concretize uma ampla extração de recursos e, por conseguinte, lucro e desenvolvimento, objetivos das partes. Por ora, seja de um lado ou do outro, os motivos para comemorar ainda não são definitivos.
Referências
ARAUJO, Gabriel. Petrobras signs production-sharing deals for Ivory Coast exploratory blocks. Reuters, 17 set. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/business/energy/petrobras-signs-production-sharing-deals-ivory-coast-exploratory-blocks-2026-09-17/ Acesso em 25 set. 2026.
PETROBRAS, Agência. Petrobras assina oito contratos de partilha de produção na Costa do Marfim. Agência Petrobras, 17 set. 2026. Disponível em: https://agencia.petrobras.com.br/w/negocio/petrobras-assina-oito-contratos-de-partilha-de-produ%C3%A7%C3%A3o-na-costa-do-marfim Acesso em 25 set. 2026.
JOURNAL, Gas & Oil. Petrobras signs contracts for oil blocks offshore Cote d’Ivoire. Oil & Gas Journal, 05 de junho 2026. Disponível em: https://www.ogj.com/exploration-development/news/55382436/petrobras-signs-contracts-for-oil-blocks-offshore-cote-divoire Acesso em 25 set. 2026.
CHAMBER, African Energy. Petrobras Deepens Ivory Coast Commitment with Eight Offshore Exploration Deals. African Energy Chamber, 18 set. 2026. Disponível em: https://energychamber.org/pt/petrobras-deepens-ivory-coast-commitment-with-eight-offshore-exploration-deals/ Acesso em: 25 set. 2026.
MOURA, Bruno de Freitas. Petrobras vai buscar petróleo na margem equatorial da Costa do Marfim. Agência Brasil, 17 set 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-09/petrobras-vai-buscar-petroleo-na-margem-equatorial-da-costa-do-marfim Acesso em 25 set. 2026.
Queda de avião militar nigeriano deixa 32 mortos e três dias de luto em todo o país
Data: 06/10/2026
Por Marina Lopes Lessa Santos

Fonte: Jornal de Brasília ,2026.
Um avião militar nigeriano, ATR-42 da Força Aérea do país, saindo de Benin em direção a Lagos, caiu na segunda-feira, 05 de outubro, no estado do Ondo, matando 32 pessoas, sendo elas, 25 passageiros e sete tripulantes. O Presidente da Nigéria, Bola Tinubu, foi o responsável por anunciar o acidente e confirmar que não houve sobreviventes. Em seu discurso, ele manifestou suas condolências às famílias das pessoas a bordo, e manifestou sua profunda tristeza com o ocorrido.
A aeronave realizava uma missão de rotina, de Benin para Lagos, quando os controladores de tráfego aéreo perderam contato com ela, às 09h13min, no horário local. O governo nigeriano afirmou que ainda não está claro o que causou a queda, e também não fez, até o momento, nenhuma acusação que indique que ela pode ter sido oriunda de uma sabotagem ou um ataque de grupos internos, como os jihadistas, ou países vizinhos. Porém, o presidente já determinou abertura imediata de uma investigação com o objetivo de apurar as circunstâncias do ocorrido, além de três dias de luto oficial no país. O acidente já é considerado um dos desastres aéreos mais fatais do país nos últimos trinta anos, e os destroços foram localizados perto da cidade de Igbokoda, no estado do Ondo, Nigéria. O governador do estado de Ondo, Lucky Aiyedatiwa, afirmou que, moradores, equipes de emergência e agentes de segurança vasculharam o local da queda, na procura de sobreviventes, mas não obtiveram sucesso.
Moradores relatam que ouviram um barulho alto, logo antes de verem a aeronave mergulhar de nariz na área pantanosa. Os membros da marinha, inicialmente, mantiveram distância do local, por risco de explosão, mas, quando concluíram que não existia risco, adentraram o local na tentativa de resgatar as vítimas a tempo. No local, não encontraram nenhum sobrevivente, apenas destroços da aeronave, carteiras de identidade e uniformes militares, o que os levou à conclusão de que se tratava de um avião militar. Até o momento, o governo nigeriano não apresentou publicamente nenhum indício ou motivo que os leve a crer que a queda foi algum tipo de ataque ou sabotagem contra o Estado. Apesar de possuir um histórico de desafios com relação à segurança interna e grupos rebeldes, o governo está tratando a situação como um acidente de avião em processo de investigação, e aguardando as análises de caixa-preta e destroços para trazer novas conclusões.
Em comunicado, o Presidente Tinubu descreveu o acidente como “um momento doloroso” para as Forças Armadas e para o país, lamentou as mortes das vítimas e ordenou uma investigação completa sobre o acidente. Além disso, ele também elogiou a Força Aérea Nigeriana pelo rápido início das operações de busca e resgate após o ocorrido e afirmou estar em oração pelas vítimas.
Referências
ADEKANYE, Oluwatamilore. allAfrica. Nigeria: Acidente com aeronave militar – Como militares da Marinha e moradores tentam resgatar as vítimas – Governador Aiyedatiwa. Publicado em: 06 out 2026. Disponível em: https://allafrica.com/stories/202610060176.html. Acesso em: 06 out 2026.
EBOH, Camillus, DZIRUTWE, MacDonald. CNNBrasil Internacional. Avião militar da Nigéria sofre queda repentina em missão e mata 32 pessoas. Publicado em: 05 out 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/aviao-militar-da-nigeria-sofre-queda-repentina-em-missao-e-mata-dezenas-pessoas/. Acesso em: 06 out 2026.
UOL, São Paulo. Notícias UOL. Avião militar da Nigéria cai e mata 25 pessoas; não há sobreviventes. Publicado em: 06 out 2026. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2026/10/06/aviao-militar-da-nigeria-cai-em-ondo-e-mata-25-nao-ha-sobreviventes.ghtm. Acesso em: 06 de out de 2026.
JOSIAH, Oluwole. Premium Times. Queda de aeronave militar: Governo de Ondo explica dificuldades na operação de resgate e recuperação dos corpos das vítimas. Publicado em: 06 out 2026. Disponível em: https://www.premiumtimesng.com/news/more-news/915046-military-aircraft-crash-ondo-govt-explains-difficulty-in-rescue-operation-recovering-victims-bodies.html. Acesso em: 06 out 2026.
ONI, Aderonke. The Cable. NSIB: NAF é responsável pela investigação do acidente aéreo — mas estamos prontos para ajudar. Publicado em: 5 out 2026. Disponível em: https://www.thecable.ng/nsib-probe-into-plane-crash-lies-with-naf-but-were-ready-to-assist/. Acesso em: 06 out 2026.
Redação Jornal de Brasília. Jornal de Brasília. Queda de aeronave militar mata 32 pessoas na Nigéria. Publicado em: 05 out 2026. Disponível em: https://jornaldebrasilia.com.br/noticias/mundo/queda-de-aeronave-militar-mata-32-pessoas-na-nigeria/. Acesso em: 06 out 2026.
Junta militar aposta em soberania econômica através de consumo de produtos locais
Data: 14/10/2026
Por Vinícius Chumbinho Ferreira

Fonte: Presidência de Burkina Faso, 2026.
Desde que Ibrahim Traoré e sua junta militar chegaram ao poder através de um golpe militar há quatro anos atrás, em setembro de 2022, a nacionalização das cadeias extrativistas, produtivas e de consumo tem sido uma das principais estratégias econômicas promovidas pelo governo. Por meio dos canais oficiais e redes sociais paralelas, a junta alega ter promovido “intensa transformação e desenvolvimento econômico”, o que considera prova de um plano sólido de soberania econômica em curso.
Da produção bélica à agricultura: o país vem anunciando diversos projetos bem sucedidos de expansão nos ditos setores. Conforme dados do site Business Insider Africa, no último mês de setembro, Burkina Faso entregou seu primeiro lote de veículos blindados Nanga, adaptados para o mercado interno e às necessidades de suas forças de defesa. O projeto foi liderado pelo engenheiro burquinense Thierry Alain Belenko-Bga e desenvolvido ao longo de mais de 24 meses. A produção de cereais em Burkina Faso atingiu 7,15 milhões de toneladas em 2025, correspondendo a 126% das necessidades nacionais de consumo interno, segundo o regime atual, que apresenta esse resultado como parte de suas metas de soberania e auto suficiência alimentar ². Contudo, apesar do excedente anunciado, o país encontra dificuldades em ministrar em totalidade os grãos, optando por direcionar parte a reserva de estratégia nacional, a SONAGESS, e parte à venda e consumo imediato, inundando o mercado nacional com tais produtos e fazendo o preço despencar ³.
Segundo o economista Abdul Kader Ouédraogo “O país não tem outra escolha, dada a sua posição e a sua busca pela soberania, senão confiar nos seus próprios recursos” e que “O país está tentando se auto financiar. 90% da receita vem de impostos. E o déficit está mais bem controlado do que em 2024, tendo caído de 4,6% para 2,6% do PIB”. “Nos últimos quatro anos, o orçamento só cresceu, com as receitas aumentando de 2,6 trilhões de francos CFA em 2023 (quase 4 bilhões de euros) para 3,7 trilhões em 2026 (5,6 bilhões de euros). Este é o maior orçamento de toda a história”, acrescenta Ouédraogo. (ABDUL, 2026)
Assim como foi na revolução defendida por Thomas Sankara (1949-1987), outro líder militar, símbolo nacional burquinabê e ícone pan-africanista, Burkina Faso, em um discurso nacionalista, está abraçando o projeto de se desenvolver por conta própria e/ou com parceiros considerados mais vantajosos (a exemplo Rússia, China e Emirados Árabes; que hoje conferem grande participação na balança comercial do país)¹ do que as potências históricas na qual foram feitas alianças no passado, como a França ou a União Europeia. No entanto, o Estado continua a se beneficiar de antigas linhas de crédito e atuais empréstimos do FMI e do Banco Mundial (BM) para financiar inúmeros projetos, o que faz aumentar a dívida externa e redefine as rotas referentes à política externa, tendo em vista que o atual governo tece duras críticas aos planos de austeridade de tais instituições e alega que ditas medidas tem como objetivo ampliar a dependência econômica relativa ao ocidente. Contudo, em junho deste ano, o Banco Mundial chegou a elogiar as “reformas ambiciosas” para uma economia “resiliente”, apesar dos desafios e dilemas de segurança, interna e externa, localizados por todo o território nacional e suas fronteiras, mostrando assim a dúbia relação entre o atual governo e essas instituições internacionais.
O ouro também é um pilar do superávit comercial, com mais de 94 toneladas produzidas em 2025, tornando Burkina Faso um dos principais produtores do continente. Uma importante refinaria de ouro foi inaugurada no final de setembro em Ouagadougou, reforçando a expertise do país no processamento de matérias-primas e a nacionalização de seus bens naturais e riquezas minerais. Em um discurso feito em uma conferência sediada no país ao fim de setembro, Traoré afirma que “o Estado deve explorar suas matérias-primas. Cabe ao Estado organizar e partilhar os frutos da exploração nacional. (…) A revolução econômica está progredindo cada vez melhor. Conseguimos realizar muitas reformas e lançar diversas iniciativas, principalmente nos setores agrícola e industrial”, acrescentou o chefe da junta. (TRAORÉ, 2026)
Em 2024, as autoridades criaram um Fundo de Apoio Patriótico, uma ferramenta popular alimentada por doações voluntárias, mas também por descontos obrigatórios nos salários (em ambos os setores, público e privado) e taxas sobre bens de consumo (bebidas, cigarros e telefonia), que tem como objetivo ampliar o financiamento público aos mais diversos setores da economia nacional. Em pouco mais de 2 anos, mais de 750 milhões de euros foram mobilizados por meio desse fundo, de acordo com as autoridades responsáveis.
“Este é um recorde que reflete a mobilização e o apoio do povo. Cada franco mobilizado, cada ação realizada, contribui para a dinâmica da soberania nacional e da resiliência trazida pela revolução popular progressista”, disse o primeiro-ministro Jean Emmanuel Ouédraogo. (Ouédrago, Jean 2026)
Referências
¹ Observatory of Economic Complexity, Burkina Faso. Publicado em 2025. Disponível em: https://oec.world/en/profile/country/bfa . Acesso em 13 out 2026
² Service d’Information du Gouvernement. CONSEIL DES MINISTRES. Publicado em 17 dec 2025. Disponível em: https://www.presidencedufaso.bf/conseil-des-ministres-du-17-decembre-2025/ . Acesso em 13 out 2026
³ Burkina Faso/Storage infrastructure: 9 warehouses with a capacity of 5,500 tonnes donated to SONAGESS. Publicado em 2 out 2025. Disponível em: https://fsrp.araa.org/en/news/burkina-fasostorage-infrastructure-9-warehouses-capacity-5500-tonnes-donated-sonagess . Acesso em 13 out 2026
⁴ Ministère de l’Économie et des Finances. Publicado em 2024. Disponível em: https://www.finances.gov.bf/accueil . Acesso em 13 out 2026
AFP, TV5 Monde, Burkina Faso. Au Burkina Faso, la junte fait le pari du souverainisme économique et du consommer local. Publicado em: 07 out 2026. Disponível em: https://information.tv5monde.com/afrique/au-burkina-faso-la-junte-fait-le-pari-du-souverainisme-economique-et-du-consommer-local-2840679 . Acesso em: 13 out 2026.
TEMITOPE, Awogbemila, Busines Insider Africa. Traore’s Russian-backed Burkina Faso rejects Western armored vehicles and unveils locally made war equipment. Publicado em 19 out 2026. Disponível em: https://africa.businessinsider.com/local/markets/ibrahim-traores-russian-backed-burkina-faso-rejects-western-armored-vehicles-and/klwdc43 . Acesso em 13 out 2026
Direction de la communication de la Présidence du Faso. SOUVERAINETÉ ÉCONOMIQUE: Le Président du Faso inaugure la première raffinerie d’or du Burkina. Publicado em 28 out 2026. Disponível em: https://gouvernement.gov.bf/actualites/souverainete-economique-le-president-du-faso-inaugure-la-premiere-raffinerie-dor-du-burkina . Acesso em 14 out 2026
Agence Ecofin. Burkina Faso: la production céréalière attendue en hausse de 18% en 2025/2026. Publicado em 18 dec 2025. Disponível em: https://www.agenceecofin.com/actualites-agro/1812-134448-burkina-faso-la-production-cerealiere-attendue-en-hausse-de-18-en-2025/2026 . Acesso em 14 out 2026
