Texto Conjuntural: África Ocidental #01 – Sequestro das garotas de Chibok e seus desdobramentos

Sequestro das garotas de Chibok e seus desdobramentos

Felipe Ramon de Britto Redondo

O Boko Haram é um grupo radical islâmico, originalmente, surgido de uma vertente que proíbe todas as formas de influência ocidental – de política a social – para muçulmanos, isso inclui desde votar em eleições até utilizar camisetas e calças ou receber uma educação secular nas escolas. Mais tarde, sua ambição passou a ser de derrubar o governo nigeriano, hoje apoiado pela Organização das Nações Unidas (ONU), e implementar uma República Islâmica. A Nigéria foi, em 2010, a 10ª maior produtora de petróleo mundial e obteve, em 2016, um Produto Interno Bruto (PIB) de 1.089 trilhões de dólares, ocupando a 24ª posição mundial, de acordo com dados da CIA (2017). No entanto, “apesar de ser um dos países de maior produção de petróleo, a desigualdade social é grande, facilitando assim a atuação de grupos com interesse no poder, pois o Estado se mostra muito corrupto e omisso a várias necessidades da população” (CARDOSO et al, 2012, p. 340). Isso confirmou-se em 2009, quando o grupo iniciou as ações armadas contra o governo e, desde então, calcula-se que mais de 20.000 pessoas já foram assassinadas em meio a estes conflitos, além de 1,5 milhão de vítimas deslocadas e outras 2 mil mulheres sequestradas segundo a Anistia Internacional (2015). Sabe-se que as escolas têm sido o foco de recrutamento de novos jihads e que o Boko Haram tem sido responsável por vários ataques a estações de polícia, assim como, a construções governamentais, não só na Nigéria, mas em países vizinhos (BBC, 2016).

O país pode ser dividido em duas regiões, o Norte de maioria islâ­mica domina a política, e o Sul de maioria cristã domina a eco­nomia” (PALADINI, 2014, p.2) e Chibok é uma cidade-mercado cristã, pertencente ao Norte, cercada, portanto, de vizinhos islâmicos. A cidade costumava ser tranquila, contudo, a introdução da Sharia, conjunto de leis baseado no Corão, vem acentuando contrastes entre as regiões e religiões do país. Em abril de 2014, 276 meninas estudantes foram sequestradas de uma escola em Chibok. No país, menos da metade dos jovens conclui o ensino médio e menos de 60% da população acima de 15 anos de idade é alfabetizada, conforme dados da CIA (2017). Além disso, as movimentações do grupo extremista têm contribuído para o fechamento de várias escolas e universidades por longos períodos. Por estes motivos, essas estudantes representam o futuro da educação na nação para os habitantes locais, enquanto que para o Boko Haram, essa é uma falsa educação, sendo ela ocidental e não partindo dos princípios islâmicos. O Boko Haram pronunciou que as garotas seriam utilizadas como escravas ou seriam casadas com os militantes do grupo. Este ato foi condenado mundialmente e ergueu-se a campanha #BringBackOurGirls (tragam de volta as nossas meninas, em tradução livre), campanha esta, de popularidade mundial na rede social Twitter (BBC, 2016; HEGARTY, 2016; UGWUMBA, ODOM, 2015; ROSA et al, 2012; SUMMERS, 2016).

De todas as 276 pessoas sequestradas, 57 puderam escapar de imediato e outras 106 foram libertas ou encontradas – significando que, até maio de 2017, 113 ainda estavam sob o controle do grupo islâmico Boko Haram. Completaram-se 3 anos, em abril de 2017, desde que estas meninas estão desaparecidas e, dada a força e expansão do grupo, não se sabe se as vítimas podem estar em uma localidade específica ou se estão espalhadas. Há suspeitas de que algumas foram utilizadas em atentados terroristas suicidas ou que foram vendidas como escravas, em um tráfico humano que acomete, seriamente, a região ocidental da África (ALJAZEERA, 2017; HEGARTY, 2016; ZENN, 2014 apud PEREIRA, 2015).

No mês de maio de 2017, foi negociada a libertação de 83 estudantes e, em troca, as autoridades deveriam devolver alguns integrantes do Boko Haram, detidos anteriormente. Dentre as 83, uma recusou-se a voltar para sua família e, de acordo com a porta-voz da presidência nigeriana, Garba Shehu, a ex-estudante afirmava estar em um feliz casamento com um dos militantes. Muitas outras não desejam retornar às suas famílias e os seus motivos são variados. Pogu Bitrus, presidente da Associação de Desenvolvimento de Chibok, afirma que estas meninas sentem-se envergonhadas e têm medo de enfrentar estigmações sociais. Qualquer uma que tenha tido alguma relação com o grupo Boko Haram, mesmo que tenha sido de abuso, é mal vista nestas regiões, como diz Bitrus. Elas precisaram fazer a difícil escolha entre tornarem-se escravas ou esposas destes militantes, muitas tiveram filhos e sentem-se extremamente envergonhadas, enquanto acredita-se que outras estejam passando por uma Síndrome de Estocolmo, na qual a vítima identifica-se e cria afeição por seus sequestradores. (SUMMERS, 2016; UOL NOTÍCIAS, 2017).

Após três anos nas mãos de um grupo extremista, não se trata somente de trazer as garotas de volta, as vítimas necessitam um processo de reintegração na sociedade. Logo após 21 das meninas terem sido libertas, em outubro de 2016, Pogu Bitrus afirmou ser preferível que elas fossem levadas para fora da comunidade e que, provavelmente, seriam educadas nos Estados Unidos, para evitar a estigmação à qual estariam sujeitas em seus meios comuns de vivência. Assim como dito, atualmente, parte das vítimas libertadas, encontradas ou que conseguiram fugir logo no início, situa-se nos EUA, enquanto outras receberam bolsas para estudar na Universidade Americana da Nigéria, na cidade de Yola a cerca de 270 km de Chibok (BBC, 2017; DEUTSCHE WELLE, 2017; SUMMERS, 2016).

Nesta etapa, iniciou-se a problemática entre os pais das alunas e o governo nigeriano. Nenhuma das 21 que foram libertas em outubro tiveram a chance de retornar às suas casas e permaneceram todos estes meses em um programa militar de reintegração. De fato, voltaram à sua cidade no natal de 2016, no entanto, foram hospedadas na casa de um político local e os pais tiveram que ir vê-las lá mesmo. As outras 82 garotas libertas em maio foram enviadas para uma localização secreta em Abuja, a capital da Nigéria, situada a cerca de 900 km de Chibok. Os interesses dos pais e do governo entram em conflito ao passo que se busca a melhor alternativa para a reintegração destas pessoas. Outra vítima do Boko Haram, embora não especificamente do caso de Chibok, contou à BBC como sofreu preconceitos e foi colocada à margem de sua antiga comunidade por ter retornado grávida e é o que se tem buscado evitar para as meninas de Chibok. (BBC, 2017; DEUTSCHE WELLE, 2017).

O presidente da comunidade de Chibok, Hosea Tsambido Abana, afirma que o método utilizado pelo governo nigeriano pode causar problemas e que deveria ser possível uma visita, ao menos, mensalmente, para as famílias refortalecerem seus laços e, ao mesmo tempo, analisar-se a possibilidade de estas vítimas poderem retornar às suas comunidades. Mesmo estando parte das famílias descontentes com a situação, a resposta da Nigéria é a de que estas meninas possuem livre arbítrio e podem permanecer ou não nos programas de reabilitação, mas elas se encontram felizes onde estão e que, além disso, todo este processo possui o consentimento dos pais. Enquanto isso, outras famílias desejam tão somente que suas filhas continuem seus estudos e esse sequestro possa ser deixado para trás (DEUTSCHE WELLE, 2017).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALJAZEERA. Boko Haram releases video of purported Chibok girls. 2017. Disponível em: <http://www.aljazeera.com/news/2017/05/boko-haram-releases-video-purported-chibok-girl-170513025720253.html>. Acesso em: 07 Jul. 2017.

ANISTIA INTERNACIONAL. Boko Haram: 2 mil mulheres sequestradas. 2015. Disponível em: <https://anistia.org.br/direitos-humanos/publicacoes/boko-haram-2-mil-mulheres-sequestradas/>. Acesso em: 06 Jul. 2017.

BBC. Nigeria Chibok abductions: What we know. 2017. Disponível em: <http://www.bbc.com/news/world-africa-32299943> Acesso em: 07 Jul. 2017.

BBC. Who are Nigeria’s Boko Haram Islamist group? 2016. Disponível em: <http://www.bbc.com/news/world-africa-13809501>. Acesso em: 07 Jul. 2017.

BRING BACK OUR GIRLS. Disponível em: <http://www.bringbackourgirls.ng/>. Acesso em: 07 Jul. 2017.

CIA. The World Factbook. 2017. Disponível em: <https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/geos/ni.html>. Acesso em: 05 Jul. 2017.

DEUTSCHE WELLE. Chibok girls: parents split over rehabilitation. 2017. Disponível em: <http://www.dw.com/en/chibok-girls-parents-split-over-rehabilitation/a-39170819>. Acesso em: 07 Jul. 2017.

HEGARTY Stephanie. BBC. As meninas de Chibok: a cidade nigeriana que perdeu suas garotas. 2016. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/04/160414_nigeria_meninas_tg>. Acesso em: 05 Jul. 2017.

PALADINI, Rafaela. A Nigéria e o Boko Haram. Séries e Conflitos Internacionais. v.1, n. 1, Out. 2014. Disponível em: <https://www.marilia.unesp.br/Home/Extensao/observatoriodeconflitosinternacionais/a-nigeria-e-o-boko-haram.pdf>. Acesso em: 06 Jul. 2017.

PEREIRA, Raissa Vitorio. Securitization of Human Trafficking: the Case of the Chibok Girls. Universidade de Brasília, 2015. Disponível em: <http://bdm.unb.br/bitstream/10483/11138/1/2015_RaissaVitorioPereira.pdf>. Acesso em: 05 Jul. 2017.

ROSA, Caio; SANTOS, Messias; CARDOSO; Thiago. A Influência dos Conflitos Religiosos no Cenário Político e nas Relações Internacionais: conflitos religiosos na Nigéria entre Islamismo e Cristianismo na atualidade e as repercussões em suas relações políticas. Pós em Revista. E6 RI 46, 2012.

SUMMERS, Chris. DAILY MAIL. ‘We Don’t Want To Go Back’: 100 Chibok Schoolgirls Refuse to Leave their Boko Haram Captors after Two Years in Captivity, 2016. Disponível em: <http://www.dailymail.co.uk/news/article-3848400/We-don-t-want-100-Chibok-schoolgirls-refuse-leave-Boko-Haram-captors-two-years-captivity.html> Acesso em: 07 Jul. 2017.

UGWUMBA, E. U.; ODOM, T. C. Boko Haram Insurgency: a Peril to Achievement of Education for All in Nigeria. International Journal of Education Learning and Development. v.3, n.1, p.1-11, Jan. 2015. Disponível em: <http://www.eajournals.org/wp-content/uploads/Boko-Haram-Insurgency-A-Peril-to-Achievement-of-Education-for-All-in-Nigeria1.pdf>. Acesso em: 05 Jul. 2017.

UOL NOTÍCIAS. Uma das meninas de Chibok recusou liberdade, diz Nigéria. 2017. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2017/05/09/uma-das-meninas-de-chibok-recusou-liberdade-diz-nigeria.htm>. Acesso em: 07 Jul. 2017.


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