Texto Conjuntural: Norte da América do Sul #6 – Países vizinhos da Venezuela se esforçam para controlar a entrada de venezuelanos em seus territórios

Países vizinhos da Venezuela se esforçam para controlar a entrada de venezuelanos em seus territórios

Um novo ano se iniciou e a crise venezuelana ainda perdura. A instabilidade política promovida pelo governo de Nicolás Maduro e a falta de emprego aliada a hiperinflação – que em 2017 ficou acumulada em 2.616%, segundo a Assembleia Nacional da Venezuela – continuam a tornar escassos os recursos e condições para se ter uma qualidade de vida minimamente confortável no país.

Dados da Pesquisa Nacional de Condições de Vida divulgados na semana passada, apontam que em 2017 a pobreza atingiu 87% da população venezuelana. Na expectativa de conseguir melhores condições de vida, há muitas pessoas que estão abandonando seus lares na Venezuela e migrando para outros países. Só nos primeiros 45 dias de 2018, por exemplo, 18 mil venezuelanos adentraram o estado brasileiro de Roraima. A estimativa é de que somente a capital do estado, Boa Vista, já abrigue mais de 40 mil venezuelanos.

Estes números, na prática, se traduzem em uma realidade caótica para o estado de Roraima, já que os serviços de saúde e educação encontram-se sobrecarregados e não há moradias ou alimentos para atender todas essas pessoas que continuam a chegar todos os dias no estado, o que tem gerado, inevitavelmente, maiores níveis de criminalidade na região. Foi em meio a este contexto que, em dezembro de 2017, o governo de Roraima declarou situação de emergência social, um ano após ter decretado situação de emergência na saúde.

Por causa de problemas como esses, recentemente, os governos da Colômbia, Brasil e Guiana – países vizinhos da Venezuela – iniciariam medidas que têm por objetivo controlar a entrada desenfreada de venezuelanos em seus respectivos territórios.

O governo colombiano, por exemplo, estipulou que a partir da primeira quinzena de fevereiro, apenas os venezuelanos portadores de passaporte válido podem entrar em seu território. Também determinou o reforço da segurança na ponte Simón Bolívar – um dos pontos físico que une Venezuela e Colômbia – em ação conjunta com os Serviços de Migração da Colômbia. No mais, aumentou-se a segurança ao longo dos 2.400 quilômetros quadrados que dividem ambos os países. Vale observar que dados não oficiais estimam que ao menos 600 mil pessoas já emigraram da Venezuela em direção a Colômbia nos últimos tempos.

Em fevereiro, o governo brasileiro também aumentou o número de tropas militares na região fronteiriça entre o país e a Venezuela, que tem aproximadamente 2.199 quilômetros de extensão. Na BR-174, agentes da Força Nacional e da Polícia Federal chegaram a parar e revistar veículos que iriam trafegar entre as fronteiras, atividade que até então era incomum. Ainda mais recentemente, o ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padillha, informou que está sendo feito um trabalho de vacinação de parte dos venezuelanos que estão em Roraima para, então, enviá-los aos estados de São Paulo e Amazonas, em um processo que ele denominou como interiorização. O objetivo é “desafogar” o território de Roraima e encaminhar essas pessoas para localidades onde poderão ter mais oportunidades de emprego.

Guiana, por fim, acompanhando as iniciativas colombianas e brasileiras, também enviou reforço militar à sua fronteira com a Venezuela, onde os venezuelanos estariam trocando armas por alimentos e outros bens essenciais que estão escassos no país, bem como estariam fazendo da região um palco de atos violentos, inclusive decapitações. O objetivo principal, segundo o governo guianês, é trazer a tranquilidade de volta à zona fronteiriça, estabelecendo, para tal, vigilância de 24 horas.

Em suma, a crise na Venezuela tem provocado o êxodo de sua população, o que se tornou um problema regional. Os Estados vizinhos, na tentativa de contornar as adversidades geradas por essa situação, estão tomando medidas mais rígidas, inclusive, para controlar a entrada desses imigrantes em seus respectivos territórios. Entretanto, enquanto as raízes da crise não forem solucionadas, a emigração dos venezuelanos tende a continuar, o que exigirá a manutenção das medidas adotadas pelos Estados fronteiriços que têm como intuito primeiro, garantir boas condições de vida para toda sua população e a segurança nacional.

 

Referências Bibliográficas:

AGÊNCIA EFE. Venezuela fecha 2017 com inflação de 2.616%, aponta Parlamento. Portal G1. 2018. Disponível em: <https://g1.globo.com/mundo/noticia/venezuela-fecha-2017-com-inflacao-de-2616-aponta-parlamento.ghtml&gt;. Acesso em: 27 de fevereiro de 2018

AGÊNCIA LUSA. Colômbia, Venezuela e Brasil mobilizam tropas para as fronteiras comuns. Observador. 2018. Disponível em: <http://observador.pt/2018/02/12/colombia-venezuela-e-brasil-mobilizam-tropas-para-as-fronteiras-comuns/&gt;. Acesso em: 27 de janeiro de 2018.

AGÊNCIA LUSA. Guiana reforça militares na fronteira com Venezuela. Observador. 2018. Disponível em: <http://observador.pt/2018/02/17/guiana-reforca-militares-na-fronteira-com-venezuela/&gt;. Acesso em: 27 de fevereiro de 2018

CAMPOREZ, Patrik. Envio de venezuelanos de Roraima para outros estados começa em 15 dias, diz governo. O Globo. 2018. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/brasil/envio-de-venezuelanos-de-roraima-para-outros-estados-comeca-em-15-dias-diz-governo-22419787&gt;. Acesso em: 27 de janeiro de 2018.

COSTA, Emily. Roraima decreta situação de emergência diante de intensa imigração de venezuelanos. Portal G1. 2017. Disponível em:  <https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/roraima-decreta-situacao-de-emergencia-diante-de-intensa-imigracao-de-venezuelanos.ghtml&gt;. Acesso em: 27 de janeiro de 2018.

COSTA, Emily. Força Nacional começa a atuar na fronteira entre Brasil e Venezuela. Porta G1. 2018. Disponível em: <https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/forca-nacional-comeca-a-atuar-na-fronteira-entre-brasil-e-venezuela.ghtml&gt;. Acesso em: 27 de fevereiro de 2018

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MENDONÇA, Heloísa. Com 40.000 venezuelanos em Roraima, Brasil acorda para sua ‘crise de refugiados’. El País. 2018. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2018/02/16/politica/1518736071_492585.html&gt;. Acesso em: 27 de fevereiro de 2018.

 


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