Texto Conjuntural: Chifre da África #12 – Sudão, rivalidades regionais e ameaça aos movimentos pró-democracia

Sudão, rivalidades regionais e ameaça aos movimentos pró-democracia

Matheus Felipe Carvalho Fonseca

No dia 11 de abril em meio a intensos protestos que haviam ocorrendo desde de dezembro do ano passado, o ex-presidente do Sudão, Omar al-Bashir, foi deposto de seu cargo através de um golpe militar. Em seguida, os próprios militares, atualmente liderado por Abdel al-Burhan, constituíram um conselho com o objetivo de governar o país durante o período de transição. No entanto, os manifestantes mantiveram-se nas ruas e passaram a exigir que o novo conselho tivesse uma participação civil. Inicialmente, os oficiais sudaneses resistiram às pressões populares, mas se viram obrigados a negociar com os manifestantes e a fazer algumas concessões.

Mesmo assim, o conselho ainda continua relutante em transferir poder  ao diversos líderes populares e ainda tentam consolidar sua posição. A narrativa dos manifestantes tem sido de que o conselho militar não fará as mudanças necessárias ao país e dará continuidade ao projeto de al-Bashir. Nesse contexto, segundo alguns observadores e meios de comunicação internacionais, como Lynch (2019) em um artigo publicado na Foreign Policy, o movimento dos militares pode ser visto como uma contrarrevolução.

Essa contrarevolução não é apenas um movimento interno, mas como argumenta Lynch (2019), possui o suporte de alguns importantes atores da região, notadamente a Arábia Saudita, Egito e Emirados Árabes Unidos (EAU). Em linhas gerais,  Arábia Saudita e EAU têm como objetivo proteger seus interesses políticos e militares, enquanto que o Egito procura evitar uma disseminação da democracia e do islamismo político.

De acordo com site de notícias Middle East Eye, após a queda de al-Bashir, uma delegação saudita-emiradense se encontrou com membros do conselho militar que governa o Sudão, trazendo uma mensagem dos seus líderes demonstrando o interesses dos países do golfo na estabilidade e segurança do país (A DELEGATION…,2019). Além do mais, o presidente do Egito, Abdel Fattah el-Sisi, ligou para al-Burhan oferecendo seu suporte.

Nesse mesmo contexto, o Conselho de Ministros da Arábia Saudita declarou apoio ao conselho militar sudanese, em seu trabalho para restaurar a “estabilidade e segurança”. O mesmo conselho ministerial saudita também destacou as diretrizes do reino para mandar ajuda ao Sudão, que consistirão em medicamentos, alimentos e produtos relacionados com petróleo. (ARAB NEWS, 2019)

Conforme noticiado pelo jornalista Khalid Abdelaziz (2019) da agência de notícias Reuters , essas ajudas anunciadas pela Arábia Saudita fazem parte de um acordo com o EAU. Os dois países concordaram em enviar 3 bilhões de dólares em ajuda ao Sudão. Desse montante 500 milhões seriam depositados junto ao Banco Central sudanês com o objetivo de fortalecer a moeda nacional, a libra sudanesa, e o restando seria enviado na forma descrita acima. A ajuda financeira chega em um momento em que a economia do Sudão se encontra em um momento extremamente complicado, o que levou a inflação e a uma grande desvalorização de sua moeda.

Apesar da complicada situação econômica do Sudão, após o anúncio da Arábia Saudita e do EAU, diversos manifestas protestaram contra. Um grupo de opositores em frente ao quartel general do exército sudanês diziam: “Nós não queremos apoio saudita.” Conforme um manifeste entrevistado, “o momento da ajuda deles diz muito sobre suas intenções. Por que eles esperaram até agora? Por que eles não pediram a Omar al-Bashir para parar quando ele estava matando nosso povo? Seu dinheiro só criará problemas para nós” [1].  (MOHAMED, 2019)

Isso demonstra que os manifestantes estão suspeitosos quanto às verdadeiras intenções por trás da ajuda saudita-emiradense. Muitos estão com medo de que as monarquias do golfo aliadas a Arábia Saudita estão utilizando seu imenso poder econômico para suprimir a democracia e apoiar um contra revolução. Os sauditas e seus aliados já foram acusados de utilizar ajuda financeira e militar para suprimir movimentos populares e manter seus aliados no poder, como aconteceu no Egito, Líbia, Bahrein, entre outros, durante a Primavera Árabe. Nesse contexto, a queda de al-Bashir e a renúncia do presidente Argelino, Bouteflika, são extremamente relevantes, pois demonstram que os movimentos pró-democracias no mundo árabe talvez não estejam mortos depois de toda a repressão que enfrentaram nos últimos anos. (BEARAK; FAHIM, 2019)

Segundo Khalid Mustafa Medani, professor associado de ciências políticas e presidente do programa de estudos africanos da Universidade McGill, os protestantes sudaneses já estavam cientes de que uma tentativa de interferência saudita poderia ocorrer e já se discutiam formas de evitar que o Sudão seguisse o mesmo caminho do Egito. Durante a Primavera Árabe, o governo egípcio foi deposto, sendo substituído por um presidente democraticamente eleito, mas que após um ano de governo sofreu um golpe de estado liderado por al-Sisi, atual presidente do país que conta com o apoio da Arábia Saudita e de seus aliados no Oriente Médio. (BEARAK; FAHIM, 2019)

A interferência dos sauditas de dos emiradenses fazem parte de um contexto mais amplo. O Sudão, devido sua localização estratégica no Mar Vermelho e a abundância de terras agricultáveis em algumas regiões, tem sido um local de rivalidade entre as potências da região. Sendo assim, o país tem recebido uma série de investimento de importantes atores regionais que vão além da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, como o Qatar e a Turquia. (BEARAK; FAHIM, 2019)

Segundo o correspondente diplomático da BBC, Jonathan Marcus (2019), a queda de Omar al-Bashir e a consequente instabilidade e vulnerabilidade tem reforçado o interesse dos Estado regionais que procuram expandir sua influência. Como colocado anteriormente, os sauditas e seus aliados tem apoiado os militares como um forma realizar seus interesses e expandir sua influência. Enquanto, que o governo turco e catari veem nos movimentos religiosos uma forma para se infiltrar na polícia sudanesa.

O alinhamento da Arábia Saudita e de seus aliados com o conselho militar é um processo natural, uma vez que as forças armadas do Sudão já faziam parte da coalizão liderada pelos sauditas na Guerra Civil do Iêmen. Por outro lado, o alinhamento do Qatar com os grupos religiosos também é um processo já esperado, uma vez que o país tem sido visto como um histórico apoiador desses grupos, em especial da irmandade Muçulmana, algo que levou ao boicote imposto ao país em 2017. (BEARAK; FAHIM, 2019)

Essas questões demonstram que o processo político que está ocorrendo no Sudão deixou de ser apenas um conflito entre forças opositoras domésticas. A crise política abriu espaço para que importantes atores regionais tentassem expandir sua influência. Alguns autores, como Lynch (2019), argumentam que o menor interesse de participação dos Estados Unidos no Oriente Médio, junto a inexistência de uma política para o Sudão, tem agravado esses conflitos entre as diferentes potências regionais.

Portanto, conforme demonstrado pelo texto, a Arábia Saudita e os Emirado Árabes Unidos tem procurado fortalecer e consolidar seus interesse no Sudão, o que envolve repressão do movimento democrático. Entretanto, outros importantes países, como a Turquia e o Qatar, também possuem seus próprios interesses, muitos dos quais não envolvem a consolidação de um movimento popular no Sudão. Conforme argumento por Marcus (2019), esses países não estão interessados na consolidação democrática do Sudão ou em ouvir as demandas dos manifestantes. Pelo contrário, o que se “tem são efetivamente duas ’marcas’ de autoritarismo que estão tentando empurrar seus partidários para posições onde possam influenciar o futuro em Cartum [2]” (MARCUS, 2019).

Referências

LYNCH, Justin. The Counterrevolution Begins in Sudan. Foreign Policy, Cartum, 22 maio 2019. Disponível em: <https://foreignpolicy.com/2019/05/22/the-counterrevolution-begins-in-sudan-bashir-protests/> Acesso em: 23 maio 2019.

A DELEGATION from Saudi Arabia and the United Arab Emirates. Middle East Eye, 17 abril 2019. Disponível em:

<https://www.middleeasteye.net/news/saudi-uae-delegation-meets-sudan-military-council>

Acesso em: 23 maio 2019.

THE SAUDI Cabinet has renewed the Kingdom’s. Arab News, Riade, 17 abril 2019. Disponível em: <http://www.arabnews.com/node/1483611/saudi-arabia> Acesso em: 23 maio 2019.

ABDELAZIZ, Khalid. Saudi Arabia, UAE to send $3 billion in aid to Sudan. Reuters. Cartum, 21 abril 2019. Disponível em: <https://www.reuters.com/article/us-sudan-protests/saudi-arabia-uae-to-send-3-billion-in-aid-to-sudan-idUSKCN1RX0DG> Acesso em: 23 maio 2019.

MOHAMED, Hamza. Sudan protesters to Saudi Arabia, UAE: ‘Please keep your money’. Al Jazeera. Cartum, 22 abril 2019. Disponível em: <https://www.aljazeera.com/news/2019/04/sudan-protesters-saudi-arabia-uae-money-190422090322276.html> Acesso em: 23 maio 2019.

BEARAK, Max; FAHIM, Kareem. From Sudan’s protesters, a warning to Saudi Arabia and the UAE: Don’t meddle. The Washington Post, Cartum, 24 abril 2019. Disponível em: <https://www.washingtonpost.com/world/middle_east/for-sudans-protesters-another-threat-looms-meddling-by-saudi-arabia-and-the-uae/2019/04/24/b2986416-667f-11e9-a1b6-b29b90efa879_story.html?utm_term=.190162b42013> Acesso em: 23 maio 2019.

MARCUS, Jonathan. Is Sudan a new regional battleground?. BBC, 02 maio 2019. Disponível em: <https://www.bbc.com/news/world-middle-east-48103828> Acesso em: 24 maio 2019.

 [1]:  ““The timing of their aid says a lot about their intentions. Why did they wait until now? Why did they not call on Omar al-Bashir to stop when he was killing our people. Their money will only create problems for us,” […]”  (MOHAMED, 2019)

[2]: “what you have are effectively two ‘brands’ of authoritarianism which are attempting to push their supporters into positions where they can influence the future in Khartoum.” (MARCUS, 2019)


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