Texto Conjuntural – Chifre da África #19: Uganda e os efeitos da crise climática

Uganda e os efeitos da crise climática

Luana Paris Bastos

Cada vez mais, questões ambientais são trazidas a debate, em busca de dados, de trocas de experiências e de soluções. No entanto, geralmente as vozes desse movimento são originárias de países do Norte global, que apesar de serem dotados de tecnologias e recursos para lidar com a nova realidade ambiental existente, não são os que mais sofrem com as consequências de fenômenos como o aquecimento global. Enquanto isso, diversos países e comunidades do Sul encontram-se à procura de alternativas para lidar com os efeitos da crise climática, que os atinge e os desafia mais intensamente, afetando até mesmo os seus meios de subsistência (ROBINSON, 2019). O continente africano, segundo a Organização das Nações Unidas, é o mais impactado pelas mudanças climáticas, tanto por sua localização geográfica quanto por sua capacidade limitada de adaptação devido à pobreza generalizada. Dessa forma, a crise climática se apresenta como um empecilho para o desenvolvimento da África, principalmente para o seu crescimento econômico (RESPONDING, 2019). O Chifre da África, que engloba Sudão, Eritrea, Djibouti, Etiópia, Somália, Quênia e Uganda, é uma região que tem sofrido com severas enchentes, secas, e consequentes falta de alimento, fazendo com que sua população se mobilize dentro do possível, na tentativa de reverter ou amenizar a situação.

O termo “crise climática“ passou a ser utilizado com mais frequência a partir do ano de 2019, e se refere às ações antrópicas e sua relação com as modificações que estão ocorrendo no planeta, incluindo o aquecimento global. Apesar de “mudança climática” e “aquecimento global” serem conceitos conhecidos e corretos, a opção pelo uso da palavra “crise” atribui um certo nível de urgência para essa questão, facilitando que ela receba a atenção que necessita (POR, 2019). A Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (NASA) prevê que os efeitos da crise climática ainda se estenderão para além desse século, e continuarão a incluir elevações de temperatura, alteração dos padrões de precipitação, maior quantidade de períodos de seca e de ondas de calor, além da ocorrência de furacões mais intensos e do aumento do nível do mar (THE, 2019). O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) publicou em relatório, dados sobre cada região da África e concluiu que, nos últimos 50 a 100 anos, a temperatura aumentou 0,5ºC ou mais na maior parte do continente, sendo que as temperaturas mínimas subiram mais rapidamente do que as máximas. Além disso, a previsão é de que na região africana, as temperaturas se elevarão mais rapidamente do que a média geral mundial deste século (ABDRABO, 2018).

Isso se torna preocupante a partir do fato de que 60% da África subsahariana é agrícola, sendo essa a principal fonte de trabalho e de alimento da população. O sucesso da agricultura e da produção alimentícia depende completamente de padrões climáticos, como temperaturas adequadas, épocas de chuva regulares e períodos de seca não prolongados. Portanto, a crise climática acaba por afetar diretamente o meio de subsistência de uma considerável parcela do povo africano (SHEPARD, 2019).

Relatórios do Assessment Capacities Project (ACAPS) demonstram que o Chifre da África tem enfrentado grandes dificuldades quanto a esses fenômenos. Em 2018, a região passou por uma época com volume de chuva considerado abaixo do esperado, e entrou o ano seguinte com um período de seca, seguido de intensas precipitações. Em julho de 2019, foi registrada uma alarmante seca, principalmente na Etiópia, Somália, Quênia e Uganda. Essa situação fez com que a população sofresse com insegurança alimentar – ou seja, com disponibilidade e acesso escasso a alimentos – e carência de água. Como consequência, cerca de 896 mil crianças foram consideradas mal nutridas e 4 milhões desnutridas. Famílias acabam por migrar de onde vivem para locais que possuam maior oferta de recursos para sobreviverem, o que promove a lotação de abrigos e aumento das necessidades destes para conseguirem ser úteis aos que precisam se abrigar. Além disso, já que a seca ocasiona tais danos nutricionais, afeta o alcance às condições básicas de vida e gera deslocamento de grupos de pessoas, a região se torna propícia a surtos epidêmicos, como de cólera, o que pressiona e satura os serviços de saúde existentes e já anteriormente precários. A partir do momento em que a população tem que lidar com todos esses fatores, o índice relacionado à educação torna-se também uma preocupação, uma vez que o contexto leva ao aumento de abandonos das escolas. (HORN, 2019)

Especificamente em Uganda, cerca de 80% da população habita áreas rurais e depende da agricultura para sobreviver (UGANDA. 20–?). Em 2019, após a severa seca que assolou não só esse país como alguns de seus vizinhos também, iniciou-se em Outubro um período de precipitação tão intenso que gerou enchentes com graves efeitos sobre os habitantes. Dois distritos do país, Bulambuli e Butaleja, estão em situação alarmante, visto que mais de 4.500 pessoas já encontram-se desabrigadas e infra estruturas imprescindíveis, como escolas e estradas, vem sendo danificadas. Diferentemente dos períodos de seca, quando inundações atingem as comunidades, a prioridade se torna conseguir abrigar os que tiveram suas casas destruídas. A assistência para garantia de água potável e alimentos também se faz extremamente necessária, já que esses episódios afetam o abastecimento de água dos locais e devasta as plantações. Dentre os fatores que agravam essa situação estão os tipos de casa nas quais se mora, visto que pelo crescimento populacional e pobreza da região, a qualidade das moradias não é alta. Além disso, os ugandeses já se encontram vulnerabilizados devido aos enfrentamentos em relação a enchentes e deslizamentos passados, assim como a seca que se alastrou pelo país neste ano ainda (UGANDA, 2019).

Apesar de uma parte da população acreditar que as mudanças climáticas são provenientes de uma maldição divina, uma parcela maior compreende que a principal causa repousa sobre as ações antrópicas, como desmatamento (NAGASHA; OCAIDO; KAASE-BWANGA, 2019). A consciência de que essas ações oriundas de outras partes do mundo, principalmente o Norte global, no entanto, não é tão vívida assim, fazendo com que a exigência por parte da população para a comunidade internacional compreender os efeitos que o descaso com o meio ambiente tem em países como Uganda, não seja tão grande. Isso reverte, entretanto, em uma mobilização dos próprios ugandeses quanto a tentar minimizar os danos que eles mesmos podem estar gerando à natureza e, assim, agravando a crise climática (LYONS; WESTOBY; NEL, 2017). Além disso, o país vem lidando com esses desastres ambientais já há alguns anos, de modo que se preparar para as próximas vezes, na tentativa de minimizar prejuízos estruturais e sociais, faz parte da sua agenda de atuação (BRANCH, 2018).

Como um dos primeiros países africanos a entrar no mercado de carbono, a Uganda também apresenta um engajamento relativo a projetos desse tópico. O incentivo ao desenvolvimento e comprometimento com economias de baixo carbono se faz presente por meio de ONGs existentes no país, além de um disseminado pensamento sobre a necessidade de reflorestamento, diminuição dos desmatamentos e eliminação da introdução de espécies exóticas.  No entanto, algo apresentado por ativistas é a necessidade de se trabalharem com o governo, de modo a facilitar a aproximação e influência dos tomadores de decisões, apesar de nem sempre ser fácil ou possível (LYONS; WESTOBY; NEL, 2017). Aos poucos, membros das comunidades mais afetadas passaram a descobrir que poderiam recorrer a eventos de Organizações Internacionais para falar sobre os problemas ambientais que enfrentam, e, dessa forma, trazer maior visibilidade ao país quanto a possibilidade de conseguirem auxílio para lidar com a situação. Foi o que aconteceu com Constance, uma mulher rural que viu o local que morava, assim como seu meio de subsistência, ser devastado por secas e enchentes. Em 2009, ao descobrir que a ONG Oxfam ia realizar um encontro sobre insegurança alimentar em uma cidade perto de onde morava, decidiu ir lá compartilhar a sua história e só assim descobriu que o que estava acontecendo em sua comunidade era efeito de mudanças climáticas. Ao retornar à sua vila, ela levou aos seus vizinhos as informações que coletou sobre o que deveriam mudar em seus comportamentos para ajudar a amenizar os efeitos da crise climática tanto em seu país, como no mundo. Essa participação de Constance também foi um modo de conseguir assistência à sua comunidade, já que atraiu olhares sensibilizados pelo que ela tinha passado (ROBINSON, 2019).

Todavia, apesar da população ser capaz de se engajar tanto em projetos de cunho ambiental, quanto em eventos de magnitude internacional, uma grande parcela ainda não entende o processo da crise climática e seus efeitos. Mesmo com anos de experiência em relação à bipolaridade de seca-enchentes, o país ainda não se encontra estruturado para os próximos anos que estão por vir e que, segundo dados já comentados, devem ser ainda piores do que se está vivendo hoje. A não ser que exista um maior auxílio internacional, tal como uma proatividade do próprio governo ugandês, e a cooperação dos habitantes da região, os efeitos da crise climática continuarão a colocar a sobrevivência da população em risco, tirando a possibilidade de viverem com dignidade e de promoverem crescimento econômico ao seu país e continente.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABDRABO, Mohamed A.; et al. Africa. Intergovernmental Panel on Climate Change, 2018. Disponível em: https://www.ipcc.ch/site/assets/uploads/2018/02/WGIIAR5-Chap22_FINAL.pdf. Acesso em: 07 nov. 2019.

BRANCH, Adam. From disaster to devastation: drought as war in northern Uganda. Disasters, 42(S2): S306−S327, 2018. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1111/disa.12303. Acesso em: 14 nov. 2019.

HORN of Africa: Drought. Assessment Capacities Project: Thematic Report, 2019. Disponível em: https://www.acaps.org/sites/acaps/files/products/files/20190722_acaps_start_thematic_report_horn_of_africa_drought_0.pdf. Acesso em: 10 nov. 2019.

LYONS, Kristen; WESTOBY, Peter; NEL, Adrian. Reforming global carbon markets or re-imagining alternative climate solutions and sustainabilities? An analysis of selected NGO strategies in Uganda. Journal of Political Ecology, vol. 24, 2017. Disponível em: https://journals.uair.arizona.edu/index.php/JPE/article/view/20812/20402. Acesso em: 18 nov. 2019.

NAGASHA, Judith Irene; OCAIDO, Michael; KAASE-BWANGA, Elizabeth. Attitudes, Practices and Knowledge of Communities Towards Climate Change Around Lake Mburo National Park Uganda: A Gender Centered Analysis. African Social Science Review, vol. 10, n. 1, 2019. Disponível em: https://digitalscholarship.tsu.edu/assr/vol10/iss1/3/. Acesso em: 18 nov. 2019.

POR que é mais correto falar em “crise climática” e não em “mudança climática”. Revista IHU On-Line: Instituto Humanitas Unisinos, 2019. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/590122-por-que-e-mais-correto-falar-em-crise-climatica-e-nao-em-mudanca-climatica. Acesso em: 10 nov. 2019.

ROBINSON, Mary. Climate Justice: A Man-Made Problem With a Feminist Solution. Londres: Bloomsbury Publishing, 2019.

RESPONDING to climate change. UN Environment Programme, 2019. Disponível em: https://www.unenvironment.org/regions/africa/regional-initiatives/responding-climate-change. Acesso em: 10 nov. 2019.

SHEPARD, Dan. Global warming: severe consequences for Africa. United Nations: Africa Renewal, 2019. Disponível em: https://www.un.org/africarenewal/magazine/december-2018-march-2019/global-warming-severe-consequences-africa. Acesso em: 07 nov. 2019.

THE Effects of Climate Change. NASA: Global Climate Change, 2019. Disponível em: https://climate.nasa.gov/effects/. Acesso em: 10 nov. 2019.

UGANDA. Climate Links: A Global Knowledge Portal for Climate and Development Practitioners, 20–?. Disponível em: https://www.climatelinks.org/countries/uganda. Acesso em: 14 nov. 2019.

 

UGANDA: Floods in Bulambuli & Butaleja.  Assessment Capacities Project: Briefing Note, 2019. Disponível em: https://www.acaps.org/sites/acaps/files/products/files/20191031_acaps_start_briefing_note_floods_in_uganda_0.pdf. Acesso em: 14 nov. 2019.

 

 


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