Texto Conjuntural: Norte da América do Sul #15 – AS DUAS FACES CHINESAS E A RELAÇÃO COM O SURINAME

AS DUAS FACES CHINESAS E A RELAÇÃO COM O SURINAME

Em outubro de 2018, foi noticiado na plataforma de notícias “Waterkant” que o Suriname está perdendo ativos de risco para a China devido à uma dívida com este Estado. Segundo a análise do economista Steven Debipersad, o Suriname corre o risco de sofrer o mesmo destino que alguns países da África e da Ásia sofreram, que, ao aceitar investimentos e negociações com a China, se submetem a uma dívida tão grande que pode vir a perder ativos importantes para o país, como aeroportos e portos marítimos.

Segundo o jornalista Nicolas Bourcier, na sua matéria no jornal britânico The Guardian, em busca de expandir seu domínio na América do Sul e principalmente na região amazônica, a China buscou investir em infraestrutura em determinados países estratégicos, dentre eles, o Suriname. Este padrão já apareceu antes na relação da China com a África, segundo o jornalista.

Como na África, Pequim estabeleceu, discreta, mas metodicamente, uma posição neste país de quase meio milhão de pessoas. A imigração aumentou substancialmente desde o final da década de 1990, acrescentando (segundo fontes oficiais) cerca de 10 mil pessoas à comunidade chinesa existente. Alguns observadores veem essa presença como uma base de retaguarda ou um teste para as ambições chinesas na América do Sul.(BOURCIER, 2015, The Guardian).[1]

Segundo o autor Richard L. Harris em sua obra “China’s relations with the Latin American and Caribbean countries – A peaceful panda bear instead of a roaring dragon”, a China às vezes, se apresenta como um dragão e às vezes como um panda dependendo da relação e do momento. Com países em desenvolvimento, no geral, a China se apresenta de maneira aparentemente mais amigável e constrói uma “relação de troca”, ou seja, investindo para depois cobrar.

Um padrão frequente de tropas anti-chinesas na cobertura da mídia e alguns da literatura acadêmica sobre a China é o uso de linguagem e imagens ameaçadoras, particularmente dragões, para representar a China. Estas tropas ajudam a promover a ideia que a presença chinesa nos países da América Latina e do Caribe representa uma ameaça de comportamento maligno e destrutivo […] A RPC [República Popular da China] pode ser retratada como um dragão voraz comendo os minerais, o petróleo e os derivados da América Latina produtos agrícolas (como soja e carne bovina da Argentina e do Brasil)  […] Em suma, a nova ênfase da RPC na criação de uma economia sustentável através do aumento do consumo e serviços domésticos e uma transição para fontes não-poluentes de energia renovável e indústrias limpas de alta tecnologia, provavelmente irão abrir novas oportunidades para uma mistura mais diversificada de exportações dos países da América Latina e Caribe para a China. Isso provavelmente também estimulará investimento direto chinês em mais projetos ambientalmente sustentáveis de fabricação, infraestrutura e energia renovável socialmente responsáveis na região. […] Talvez isso também possa levar a China a ser associada ao seu mascote nacional, o urso panda, em vez de continuar a ser estigmatizado como um dragão voraz que respira fogo. (HARRIS, Richard L., 2015, p. 160-165-182)[2]

Tal investimento, como previsto, levou o Suriname a entrar em grande dívida com a China, já que não havia um planejamento para o pagamento da mesma. Como solução provisória, a China compraria ativos importantes do Suriname, o que acaba por aprofundar a dívida e a dependência desse último com a China.

A economia do Suriname é profundamente baseada em extração de minérios como bauxita e ouro, e na importação de alumínio. Segundo Winston Ramautarsing, professor de economia na Universidade do Suriname, Anton de Kom, enquanto o Suriname era colônia da Holanda, foi proibido auxílio desenvolvimentista ao país, fazendo com que ele tivesse que buscar outros meios, somado a isso, houve um forte interesse chinês na área amazônica, havendo então, incentivo para que os Estados cooperassem.

O relacionamento do governo holandês com o clã Bouterse foi turbulento, particularmente quando suspendeu a ajuda ao desenvolvimento. Isso levou o alto escalão do regime a buscar outras soluções”, diz Winston Ramautarsing, professor de economia da Universidade Anton de Kom, no Suriname. “Ligações mais estreitas com a China, que deseja encontrar seu lugar na bacia amazônica por razões óbvias, surgiram quase naturalmente. “É a mesma tendência em todos os lugares, mas dado o tamanho do nosso país e a maneira como as autoridades daqui os acolheram de braços abertos, a presença chinesa é mais visível”, acrescenta. (BOURCIER, 2015, The Guardian)[3]

Resta, então, aguardar como o Suriname irá lidar com a dívida e se seguirá o mesmo destino que países em desenvolvimento tendem a ter ao se relacionar com a China.

REFERÊNCIAS

BOURCIER, Nicolas. China finds an eager South American stablemate in Suriname. 2015. Disponível em: <https://www.theguardian.com/world/2015/jun/23/suriname-china-business-influence>. Acesso em: 25 de novembro de 2018

HARRIS, Richard L. China relations with Latin American and Caribbean countries: a peaceful panda bear inside a roaring dragon. Latin America Perspectives. 2015.

ROMERO,  Simon. Ajuda ao Suriname amplia papel da China na América do Sul. 2011. Disponível em: < https://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/nyt/ajuda-ao-suriname-amplia-papel-da-china-na-america-do-sul/n1300050421741.html&gt;. Acesso em: 25 de novembro de 2018

WATERKANT. Suriname loopt risico bezittingen kwijt te raken aan China. 2018. Disponível em: <https://www.waterkant.net/suriname/2018/10/21/suriname-loopt-risico-bezittingen-kwijt-te-raken-aan-china/&gt;. Acesso em: 25 de novembro de 2018

RODAPÉS

[1] “As in Africa, Beijing has unobtrusively but methodically established a foothold in this country of barely half a million people. Immigration has substantially increased since the late-1990s, adding (according to official sources) about 10,000 people to the existing Chinese community. Some observers see this presence as a rear base or testbed for Chinese ambitions in South America.” (BOURCIER, 2015, The Guardian)

[2] “A frequent pattern of anti-Chinese tropes in the media coverage and some of the academic literature on China is the use of threatening language and imagery, particularly dragons, to represent China. These tropes help promote the idea that the Chinese presence in the Latin American and Caribbean countries represents a dragon-like threat of evil and destructive behavior […] the PRC can be portrayed as a voracious dragon eating up Latin America’s minerals, oil, and agricultural products such as soybeans and beef (from Argentina and Brazil). […] In sum, the PRC’s new emphasis on creating a sustainable economy through increased domestic consumption and services and a transition to nonpolluting sources of renewable energy and clean high-technology industries will most likely open up new opportunities for a more diverse mix of exports to China from the Latin American and Caribbean countries. It will probably also stimulate Chinese direct investment in more environmentally sustainable and socially responsible manufacturing, infrastructure, and renewable energy projects in the region […] Perhaps it might also lead to China’s being associated with its national mascot, the panda bear, instead of continuing to be stigmatized as a fire-breathing and voracious dragon.” (HARRIS, Richard L., 2015, p. 160-165-182)

[3] ““The Dutch government’s relationship with the Bouterse clan was turbulent, particularly when it suspended development aid. This prompted the regime’s top brass to look for other solutions,” says Winston Ramautarsing, a lecturer in economics at Anton de Kom University of Suriname. “Closer links with China, which is keen to find its place in the Amazon basin for obvious reasons, came about almost naturally. “It’s much the same trend everywhere, but given the size of our country and the way the authorities here have welcomed them with open arms, the Chinese presence is more visible,” he adds.” (BOURCIER, 2015, The Guardian)


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