Texto Conjuntural – África Ocidental #6: A ameaça terrorista na África Ocidental

A ameaça terrorista na África Ocidental

Giulia Rafaela Santos Schettini

O ganho de influência de grupos terroristas em países pobres da África Ocidental nos últimos anos é uma grande ameaça para a estabilidade da região, do continente africano e do mundo como um todo. Noticiários tem frequentemente registrado diversos casos de ataques terroristas na localidade, principalmente nos países da região do Sahel, próximo ao deserto do Saara. Países estes em situação precária e que já conviviam com certa instabilidade, relacionada a problemas governamentais e clima, como é o caso da Burkina Faso, Mali e Niger, Estados fronteiriços entre si e escolhidos como foco de observação nesta análise em função de serem palco de diversos dos acontecimentos apresentados, estando inclusive conectados por estes, e pela posição de grande importância na conjuntura da África Ocidental dos mesmos.

Segundo o site oficial da Organização das Nações Unidas, de acordo com um enviado especial das nações unidas, Mohammed Ibn Chambas, esses ataques em tais regiões seriam executados por grupos ligados a Al-Qaeda e ao Estado Islâmico, como o Boko Haram. É apontado  por Mclean (2019) , que estes grupos terroristas que tem ganhado força na área, principalmente na tríplice Mali, Burkina Faso e Niger, buscam o estabelecimento de rotas de tráfico mais livres, que facilitam o transporte e a articulação de redes de comunicação e comércio pelo continente, o que contribuiria ao desenvolvimento e enriquecimento desses grupos.

A escolha da região para a organização dessas rotas está relacionada ao vácuo de poder na região, causada pela falta de jurisdição e segurança, além da problemática governamental. O perigo de tais rotas na região do Sahel vai além da alta lucratividade, envolve também a cooperação entre grupos criminosos e esses extremistas, que muitas vezes se enriquecem das mesmas ainda que indiretamente, proporcionando segurança durante o trajeto aos contrabandistas. Tal relação escancara a possibilidade de uma integração e fortificação dos mesmos, que individualmente ja causam consequências em escala global (ABDERRAHMANE, 2013).

Conforme reportagem do ANGOP (2019), jornal angolano, a situação no Mali, Estado que está localizado logo acima da Burkina Faso, teve início em 2012, com forças jihadistas tomando inicialmente o norte do país, e posteriormente, se dispersando na área central, o que aponta para o crescimento desses grupos, que alcançam localidades demasiadamente povoadas, onde as forças armadas francesas, da ONU e do exército local, mesmo com tratados de paz, foram incapazes de contê-los.

No caso da Burkina Faso, segundo Maclean (2019), alguns desses grupos jihadistas exploram a vulnerabilidade do governo, e, por meio dela, ameaçam a coesão social e a ordem vigente ao utilizar do descontentamento de populações marginalizadas com os orgãos públicos para ganhar apoio e recrutar novos membros para os atos extremistas, se apresentando não só como a melhor opção mas também como uma autoridade, mesmo que forçada, que não negligencia essas populações, oferecendo serviços de saúde, educação e infraestrutura. Essa relação permite uma análise em conformidade com o questionamento da firmeza e capacidade administrativa desses governos, que, em alguns casos, resistem apenas graças ao apoio internacional ou intervenção externa, e que, na perspectiva dessas comunidades desfavorecidas, perdeu seu papel como provedor de serviços devido a sua incapacidade de suprir as necessidades da população. Além disso, alguns dos principais alvos desses extremistas seriam as forças armadas e a polícia, representantes de tal força estatal.

Alguns dos mais intensos ataques desses grupos tem como alvo embaixadas e escolas. De acordo com Peter Beaumont (2018) em uma reportagem ao The Guardian, essa estratégia seria uma campanha que objetiva estabelecer uma educação que se baseia no livro sagrado muçulmano, o Alcorão. Além disso, pode-se analisar esses ataques também como forma de demonstrar rejeição aos parâmetros culturais ocidentais e suas intervenções na localidade. Segundo a Unicef, 98 escolas teriam fechado em função do constante estado de perigo, causado pela falta de segurança e ameaças frequentes.            

Outro fator que evidencia as graves consequências desses conflitos seria o grande número de pessoas que tem se deslocado dessas regiões, fugindo dos expressivos casos de violência, fome e instabilidade. Segundo notícia do ANGOP (2019), esses números chegam a 260 mil refugiados do Mali, além das que permanecem em tais localidades e necessitam de assistência, cerca de 3,2 milhões de pessoas. Tais números apontam a crítica situação de crise humanitária do país.

Em relação ao Niger, é apontado por Maclean e Saley (2018) que, por pressão europeia, foi tornado ilegal o contrabando de pessoas, o que tornou a migração um crime e fez com que pessoas responsáveis pelo transporte desses indivíduos que buscam a migração perdessem suas fontes de renda, além de fazer  da rota até a Líbia ainda mais perigosa, o que fez com que diversas pessoas que tentavam alcançar um caminho até a Europa, principalmente pelo Mar Mediterrâneo, não passassem do deserto do Saara, onde ainda se é incapaz de se realizar contagem exata do número de mortos por fontes confiáveis . Dessa forma, esses indivíduos que foram criminalizados estariam a mercê do Estado, o que intensifica a sensação de desamparo, e assim estariam vulneráveis a influência de membros desses grupos terroristas, que utilizam das necessidades dos mesmos para recruta-los.

De acordo com a fonte de notícias ANGOP (2018), David Beasley, um líder do Programa Alimentar Mundial (PAM) afirma o perigo de que, caso a crise não seja solucionada na região, ela configura um grande risco para a emergência de uma nova crise migratória, que superaria a magnitude do fluxo de refugiados referentes à Guerra Civil da Síria, evidenciando que os casos em questão são referentes a cerca de 500 milhões de pessoas. O diretor teria avisado representantes europeus para que tomem providências e auxiliem os países da região do Sahel, a partir inclusive de donativos, a fim de reestabelecer a estabilidade nos territórios afetados. Ele usa como exemplo, casos de homens que teriam aderido ao Estado Islâmico em troca de comida para alimentar suas famílias, o que demonstra a possibilidade de escalada e intensificação desses conflitos, que inclusive se apresentam como risco a “harmonia” da UE, considerando o teor anti-imigração de políticas elaboradas pela Organização.

No entanto, deve-se levar em consideração que a atuação desses grupos não só na região mas também no continente africano como um todo não é atual, porém, eventos recentes ligados a atos transnacionais seriam responsáveis por atrair a atenção internacional e acadêmica a esses extremistas. Walter Nkwi descreve em artigo como essa relação do Sistema Internacional frente a ameaça terrorista se da a partir do ataque ao World Trade Center em 2001, desconsiderando as raízes desses grupos na história do continente e os impactos sobre as populações locais. (NKWI, 2015)

Dessa forma, considerando a recente conjuntura mundial, a relação estabelecida e as medidas tomadas no Sistema Internacional frente os grupos terroristas, é importante realizar uma análise crítica do atual contexto e quais seriam as preocupações e interesses dos líderes europeus e norte americanos: as populações que sofrem, e tem sofrido há anos,  cotidianamente sob a influência desses grupos e o desamparo de seus governos ou o perigo terrorista transnacional e possibilidade de uma nova crise migratória.

Conclui-se portanto que é de extrema importância que se mantenha atenção nos acontecimentos que se desdobram na região da África Ocidental, analisada neste trabalho a partir de eventos que aconteceram em três Estados que se encontram em delicada conjuntura frente a ameaça terrorista e vulnerabilidades estruturais no geral. O problema na região não é apenas de relevância em relação ao continente africano mas sim do mundo como um todo, tendo em vista que, a intimidação de grupos jihadistas e o fortalecimento dos mesmos aponta não só para novas crises migratórias e humanitárias, mas também para a  provável ascendência de uma ameaça global, com elevado poder destrutivo, que se desenvolve e se espalha por áreas que são negligenciadas não só pelo governo local mas também por autoridades internacionais como um todo.

Referências

ABDERRAHMANE, Abdelkader. How security vacuum provides terrorists and traffickers fertile ground in the Sahel. African Journal for the Prevention and Combating of Terrorism, v.4, p.11 – 38, 2013. Disponível em: <https://caert.org.dz/Publications/Journal/journal-2013-1.pdf&gt; Acesso em: 01 Maio. 2019.

ATAQUES do Boko Haram são crescente ameaça na África Ocidental e no Sahel, diz ONU. Org. das Nações Unidas, 12 Jan. 2018. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/ataques-do-boko-haram-sao-crescente-ameaca-na-africa-ocidental-e-no-sahel-diz-onu/&gt; Acesso em: 21 Abr. 2019.

BEAUMONT, Peter. Army HQ and French embassy attacked in Burkina Faso capital. The Guardian, Ouagadougou, 2 Mar. 2018. World. Disponível em: <https://www.theguardian.com/world/2018/mar/02/burkina-faso-attacks-launched-multiple-french-sites-ouagadougou>&nbsp; Acesso em: 21 Abr. 2019.

MACLEAN, Ruth. ‘Alarming’ Burkina Faso unrest threatens West African stability. The Guardian, Ouagadougou, 7 Mar. 2019. World. Disponível em: <https://www.theguardian.com/world/2019/mar/07/alarming-burkina-faso-unrest-threatens-west-african-stability > Acesso em: 21 Abr. 2019.

MACLEAN, Ruth. SALEY, Omar. New terrorista threat as EU stance on migrants triggers disquiet in Niger. The Guardian, 27 Jun. 2018. Disponível em: <https://www.theguardian.com/global-development/2018/jun/27/lost-jobs-rising-extremism-eu-stance-migrants-bodes-ill-niger&gt; Acesso em: 21 Abr. 2019.

MALI: Dez militares mortos num ataque presumíveis jihadistas. ANGOP, 21 Abr. 2019. Disponível em: <http://www.angop.ao/angola/pt_pt/noticias/africa/2019/3/16/Mali-Dez-militares-mortos-num-ataque-presumiveis-jihadistas,a2f4c004-f17a-47a6-9f99-fd5600b71717.html&gt; Acesso em: 21 Abr. 2019.

NKWI, Walter. Terrorism in West african history: a 21st century appraisal. Austral: Brazilian Journal of Strategy & International Relations v.4, n.8, p.78-99, Jul./Dec. 2015. Disponível em: <https://seer.ufrgs.br/austral/article/viewFile/56968/36744&gt; Acesso em: 01 Maio. 2019.

ONU alerta para possível nova crise migratória da África para a Europa. ANGOP, 26 Mar. 2018. Disponível em: <http://www.angop.ao/angola/pt_pt/noticias/internacional/2018/2/13/ONU-alerta-para-possivel-nova-crise-migratoria-Africa-para-Europa,0eb81a97-707d-4d02-bdf7-3b0ffd51f733.html&gt; Acesso em: 21 Abr. 2019.

PUJOL-MAZZINI, Anna. Grupos terroristas islâmicos miram sua atenção para a África Ocidental. Gazeta do Povo, 8 Jul. 2018. Disponível em: <https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/grupos-terroristas-islamicos-miram-sua-atencao-para-a-africa-ocidental-2fvhzwwg4gmti72o2rlaay9sb/&gt; Acesso em: 21 Abr. 2019.


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