Texto Conjuntural – Chifre da África #14: Guerra sem fim: Onde vive a ponta de esperança?

GUERRA SEM FIM: Onde vive a ponta de esperança?

Marcelle Teixeira Girundi

A guerra existente hoje na região do Sudão do Sul remonta tempos anteriores a independência do país em relação ao Sudão. Visando compreender as origens e implicações atuais deste conflito, é que iremos analisar e identificar os motivos que levaram milhões de pessoas a se deslocarem de seu país de origem, deixando para trás famílias, casas, empregos, memórias e histórias. Estas pessoas estiveram submetidas muitas vezes, a condições tão ruins quanto as presentes em seus países originais. Os sul-sudaneses, assim como outros imigrantes advindos do continente africano tem que lidar com a recusa velada por parte de Estados mais desenvolvidos, que por ignorância continuam a negar a abrir suas fronteiras para auxiliar a quem precisa, elevando a ocorrência de casos de xenofobia na Europa.

            Ao analisarmos as condições atuais do Sudão do Sul, podemos constatar altos índices de pobreza que levaram e que levam, ainda hoje, milhões de pessoas a se tornarem refugiados. Esta situação remonta o final da Segunda Guerra Civil do Sudão, que foi responsável pela morte de milhões de pessoas, levando ao agravamento dos problemas internos tanto do Sudão quanto do Sudão do Sul, que viria a conquistar sua independência com a assinatura dos acordos de paz em 2005. Segundo Oliveira e Silva (2011), “A separação do Sudão do Sul é parte de um processo complexo, resultante dos acordos de paz de 2005, que puseram fim à Segunda Guerra Civil do Sudão (1983-2005), conflito que resultou em mais de 2 milhões de mortos.” (OLIVEIRA; SILVA, 2011).

Diversos foram os empecilhos enfrentados pelos sul-sudaneses no processo de independência. Dentre eles, houve a forte oposição de Estados africanos que alegaram o risco de que a Independência do Sudão do Sul levaria outras regiões que possuem diversidades étnicas, religiosas e culturais a quererem se emancipar. (OLIVEIRA; SILVA, 2011). Esta se tornou uma questão central na discussão da independência, pois o risco de que novos conflitos se deflagrassem no continente era real. Mesmo diante de forte oposição, no dia 09 de julho de 2011, após um referendo realizado entre os cidadãos, o Estado foi finalmente reconhecido como independente, (OLIVEIRA; SILVA, 2011, p.24), “compondo a posição de 193º membro da Organização das Nações Unidas”. (OLIVEIRA; SILVA, 2011, p.24).

Em meio a essa longa história de batalhas, perdas e ganhos parciais, devemos nos questionar, onde vive a esperança neste país? Poderíamos dizer que a esperança se dá por meio da estabilidade do governo, ou através de doações direcionadas ao Estado do Sudão do Sul, visando combater a fome, ou ainda, por meio do auxílio dos capacetes azuis para o conflito no país. Porém, a resposta correta reside em uma soma de fatores, o principal deles é o combate à fome e o aumento dos investimentos em educação, condições estas que só podem ocorrer com a estabilidade do governo nacional. Em um país com um dos piores índices de escolaridade do mundo, o qual passa por guerras e conflitos desde 1983, enquanto ainda era parte integrante do Sudão, vemos que as diferentes gerações que compõem seus nacionais, não conhecem outra realidade se não a de mortes, violência, fome e pobreza.

Os problemas no Sudão do Sul estão emaranhados em todas as esferas: política, econômica e social. Os investimentos advindos das doações internacionais para a área educacional serão de fundamental importância para a transformação do país africano, gerando a possibilidade de emancipação de seus cidadãos e dando uma nova perspectiva de progresso e futuro entre eles. “A alternativa para a escola é a de esperar sem opções claras para o futuro”. (GIFT apud LOPES, 2019). Os grande desafios deste país ainda estão relacionado à condições básicas de suprir a fome, o saneamento básico e por fim, a educação.

Ao analisarmos a conjuntura atual do país, vemos que apesar dos interesses da população, o novo Estado vem sofrendo com grandes dificuldades devido à pobreza extrema e aos conflitos armados que assolam o país. Segundo o “Relatório do Desenvolvimento Humano” publicado pelo PNUD em 2018, o Sudão do Sul ocupa a posição 187, de 189 países com baixo Índice de Desenvolvimento Humano, estando à frente da República Centro Africana e da Nigéria e atrás do Sudão, que ocupa a posição 167. Vemos assim, que o governo do Sudão do Sul encontra grandes desafios para que o país consiga melhorar as condições básicas de saúde e de alimentação de seus nacionais, além da segurança interna.

A expectativa de vida dos sul-sudaneses é outro ponto alarmante, sendo a mesma de apenas 57,3 anos, enquanto, na Noruega, que ocupa o primeiro lugar como país com melhor IDH, a expectativa de vida gira em torno de 82,3 anos. Os níveis de escolaridade dos habitantes do Sudão do Sul são de apenas 4,9 anos, enquanto na Noruega é de 17,9, mais que 3 vezes o valor do país africano. (UNITED NATIONS DEVELOPMENT PROGRAMME, 2018, p. 22 e 25). Vemos que as discrepâncias no IDH entre os Estados e regiões do planeta se modificam em larga escala entre os diferentes continentes, porém um fator é comum a todos, os países com os melhores índices possuem entre seus nacionais maior anos de escolaridade.

Somados, todos estes fatores levaram milhões de pessoas a se deslocarem para além das fronteiras sul-sudanesas, visando obter melhores condições de vida em outros Estados e regiões. Após a independência em 2011, conflitos internos se agravaram no país. “Desde 2013, o Estado mergulhou num conflito armado que teria provocado quase 400 mil mortes. A crise levou 2,3 milhões de cidadãos a buscar refúgio em outros países”. (NAÇÕES UNIDAS BRASIL, 2019). Segundo o ACNUR, a “[…] situação dos sul-sudaneses expatriados é considerada a pior crise de deslocamento forçado da África. […] a conjuntura tem impactos desproporcionais sobre as crianças, que representam em torno de 65% de todos os refugiados” deste país. (NAÇÕES UNIDAS BRASIL, 2019). O ACNUR aponta que, mesmo com a assinatura do Acordo de Paz em 12 de setembro de 2018, “houve progressos, mas pontos de tensão fundamentais continuam sem resolução, e a paz está longe de ser certa.” (NAÇÕES UNIDAS BRASIL, 2019).

 No ano de 2019, uma nova questão é posta em jogo. Haverá ou não o fim do conflito com a criação de um governo de unidade nacional? Segundo o vice-presidente Taban Deng Gai, “o presidente do Sudão do Sul disse que formará o governo da unidade nacional transitória até novembro próximo, com ou sem a presença da oposição”. (MUNDO AO MINUTO, 2019). Neste novo cenário, a população sul-sudanesa poderá ter esperança de dias melhores com a paz estabelecida em seu território. Para além da soma de condições precárias, ainda há esperança para as próximas décadas com este anúncio, podendo assim colocar fim ao fluxo de refugiados advindos deste país na Europa, e consequentemente, estabilizar o país visando o seu crescimento econômico e social.

REFERÊNCIAS 

BBC NEWS. Entenda os fatores envolvidos na independência do Sudão do Sul. Brasil, 08 de julho de 2011. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2011/07/110708_sudaosul_q-a_pai. Acesso em: 30 set. 2019.

LOPES, Carlinda. Top of his class and hungry for more, a young South Sudanese refugee battles the odds. UNHCR- The UN Refugee Agency, Biringi, 2019. Disponível em: https://www.unhcr.org/afr/news/stories/2019/8/5d68f7407/top-class-hungry-young-south-sudanese-refugee-battles-odds.html. Acesso em: 30 set. 2019.

MUNDO AO MINUTO. Sudão do Sul quer novo governo de unidade nacional formado até novembro. ?, 27 de setembro de 2019. Disponível em: https://www.noticiasaominuto.com/mundo/1328710/sudao-do-sul-quer-novo-governo-de-unidade-nacional-formado-ate-novembro. Acesso em: 30 set. 2019.

NAÇÕES UNIDAS BRASIL. Oito anos após independência, Sudão do Sul ‘viu mais guerra do que paz’, diz ACNUR. ?: 10 set. 2019. Disponível em: https://nacoesunidas.org/oito-anos-apos-independencia-sudao-do-sul-viu-mais-guerra-do-que-paz-diz-acnur/. Acesso em: 30 set. 2019.

OLIVEIRA, Lucas Kerr de; SILVA, Igor Castellano. Sudão do Sul: novo país, enormes desafios. Revista Meridiano 47. Vol. 12, n. 128, nov-dez. 2011. Disponível em: https://search.proquest.com/openview/b39d3a20b6d3e9be15a68d18f8d05789/1?pq-origsite=gscholar&cbl=1606381. Acesso em: 30 set. 2019.

UNHCR. Investing in humanity: why refugees need an education.?, 2019. Disponível em: https://www.unhcr.org/steppingup/. Acesso em: 30 set. 2019.

UNITED NATIONS DEVELOPMENT PROGRAMME. Human Development Indices and Indicators: 2018 Statistical uptade. Nova Iorque, 2018. Disponível em: http://www.br.undp.org/content/brazil/pt/home/library/idh/relatorios-de-desenvolvimento-humano/relatorio-do-desenvolvimento-humano-2018.html. Acesso em: 30 set. 2019.

 


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