Texto Conjuntural: África Austral #2 – O aquecimento global e a incidência de malária em Moçambique

Por Larissa Machado

Este texto conjuntural tem como objetivo observar os impactos das mudanças climáticas e aquecimento global na incidência de malária na África, especialmente em Moçambique. O aquecimento global representa um dos maiores desafios da contemporaneidade, conforme as previsões do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas). Segundo o seu quinto relatório, os níveis de mudança climática observados desde 1950 são sem precedentes e a média da temperatura global está projetada para crescer entre 1.4 e 5.8ºC até o final deste século, o que acarretará em diversos fenômenos como aumento do nível do mar, maior incidência de chuvas torrenciais e enchentes em muitas partes do mundo, assim como secas contínuas. Estes problemas, no entanto,  não se restringem apenas à esfera ambiental e afetam de forma desigual os países ao redor do globo, uma vez que trazem fortes consequências sociais e econômicas (IPCC, 2014)

A previsão é de que os países africanos apresentem eventos climáticos extremos e aumento de temperatura maior do que o nível médio global durante o século XXI, cujos efeitos serão exacerbados pelos altos níveis de vulnerabilidade social e ecológica da região, além da capacidade relativamente limitada da sociedade civil, do setor privado e dos atores do governo de responder adequadamente a essas ameaças emergentes (IPCC, 2014). Entre as consequências nocivas do aquecimento global, uma das que têm chamado atenção dos países africanos é a do aumento de doenças transmitidas por vetores, como a malária. Esta é uma doença infecciosa e potencialmente fatal, cuja transmissão se dá pela picada de mosquitos infectados com o protozoário plasmodium (ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DE SAÚDE – OPAS, 2019).

De acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), a África Subsaariana já carrega uma parte desproporcionalmente grande da incidência de malária a nível global (em 2017, a região apresentou 92% dos casos e 93% das mortes), mas as mudanças nos padrões climáticos aumentam ainda mais a susceptibilidade à doença. Os dados do projeto MARA (Mapping Malaria Risk in Africa) [1] foram aplicados a projeções climáticas globais para examinar possíveis mudanças no risco de malária nas regiões da África. Concluiu-se que, excluindo qualquer aumento na população, um incremento de 16 a 28% ao risco da doença é previsto até o ano 2100 (TANSER; SHARP; SUEUR, 2003).

A relação da transmissão da malária com as condições climáticas se dá pela alteração que estas podem causar no número e na sobrevivência de mosquitos, seja pelos diferentes padrões de chuva, temperatura da água ou umidade. A transmissão geralmente é sazonal, com pico durante e depois da estação de chuvas (OPAS, 2019). Moçambique, além de já estar em terceiro lugar na lista de países mais afetados pela malária no mundo, nos últimos anos vem apresentando sérios problemas com aumento das inundações e ocorrências de chuva, que favorecem a susceptibilidade a doenças infecciosas (DEUTSCHE WELLE, 2018).

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), Moçambique é um dos países mais vulneráveis do mundo às variações no clima, em decorrência da sua localização geográfica numa zona de convergência intertropical e sua vulnerabilidade socioeconômica, sendo frequentemente afetada por desastres naturais (ONU, 2019). Ao representar o aquecimento anormal de águas superficiais e subsuperficiais do Oceano Pacífico, o fenômeno El Niño traz mudanças nos padrões de chuvas e temperatura em regiões tropicais, assim como o fenômeno inverso de resfriamento atípico das águas chamado de La Niña (INPE, 2001). Desta forma, secas extremas em Moçambique durante as fases do El Niño se alternam com inundações severas durante La Niña. Para o futuro, é previsto que as águas do Canal de Moçambique terão suas temperaturas aumentadas de forma relativamente rápida, o que faz com que a incidência de ciclones cresça (ONU, 2019).

No ano de 2019, o país sofreu com dois ciclones, Kenneth e Idai, que deixaram as cidades moçambicanas devastadas por enchentes, cujos danos atualmente apresentam dificuldades econômicas para serem solucionados (DEUTSCHE WELLE, 2019). De acordo com relatório publicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em junho de 2019 os casos semanais de malária nos distritos afetados pelo ciclone Kenneth ainda estavam aumentando, com 27.404 casos registrados até o final daquele mês (OMS, 2019b).

Mapa 1: Países nos quais os casos totais de malária excederam 300.000 em 2017 e que apresentaram uma redução (verde) ou um aumento (vermelho) de mais de 100.000 casos entre 2016 e 2017

Fonte: Organização Mundial da Saúde (2018)

Conforme destacado no mapa acima, Moçambique não só se encontra na lista de países com maior incidência de malária no mundo, mas também entre os que lidam com o aumento da sua ocorrência nos últimos anos. O relatório apresentado pela OMS mostra que a doença apresentou um acréscimo de cerca de 250.000 casos no país entre os anos de 2016 e 2017, ficando atrás apenas de Nigéria, Madagascar e República Democrática do Congo. Assim, é possível observar que, além de já apresentado um número elevado de casos de malária durante a sua história, esta realidade em Moçambique continua sendo crescente.

Tendo em vista este cenário de fortes efeitos das mudanças climáticas no país, Moçambique tem adotado medidas para tentar conter o aquecimento global. Entre elas, se encontra o National Adaptation Programme of Action (NAPA), criado em 2007, em parceria com a ONU, que visa coordenar a elaboração e implementação de um plano de ação para adaptação às mudanças climáticas em vários setores de desenvolvimento econômico e social no território moçambicano (USAID, 2012). Além disso, em conjunto com a Organização Mundial de Saúde, um projeto de quatro anos está sendo desenvolvido no país, com o objetivo de aumentar a resiliência climática do Sistema Nacional de Saúde de Moçambique. Contando com a cooperação de universidades europeias, órgãos de saúde e meteorológicos do país e da ONU, o projeto visa  garantir a existência de protocolos de ação para responder a condições climáticas de curto, médio e longo prazo, de modo que a qualidade e a cobertura dos serviços de saúde sejam prioridade (OMS, 2019a).

É necessário salientar que, apesar da importância das condições climáticas, a ocorrência de doenças como a malária em Moçambique também se dá por vulnerabilidade em uma série de outros setores, como acesso insuficiente à água potável, saneamento básico, sistemas de saúde pública precário e má governança. Desta forma, além da atenção para as mudanças do clima, a integração e colaboração entre estes outros setores são essenciais no combate à doença no país. Além disso, os esforços para o combate das mudanças climáticas devem ser de preocupação global, uma vez que as ações de grandes países, principalmente potências econômicas, têm grande responsabilidade pela alteração das taxas de aquecimento global e afetam de forma desproporcional os países com menor grau de desenvolvimento, como Moçambique.


[1] Mapeando o Risco de Malária na África

REFERÊNCIAS

DEUTSCHE WELLE. Moçambique é o país com a terceira maior percentagem de casos de malária no mundo. Deutsche Welle. Moçambique, 19 nov. 2018. Disponível em: <https://www.dw.com/pt-002/mo%C3%A7ambique-%C3%A9-o-pa%C3%ADs-com-a-terceira-maior-percentagem-de-casos-de-mal%C3%A1ria-no-mundo/a-46367062>. Acesso em: 23 out. 2019.

DEUTSCHE WELLE. Pós-ciclones:Moçambique precisa de 3,2 mil milhões de dólares. Deutsche Welle. Moçambique, 24 out. 2019. Disponível em: <https://m.dw.com/pt-002/pós-ciclones-moçambique-precisa-de-32-mil-milhões-de-dólares/a-50972383>. Acesso em: 24 out. 2019.

INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISA ESPACIAL – INPE. El Niño. Brasil, 2001. Disponível em: <http://enos.cptec.inpe.br/saiba/Oque_el-nino.shtml&gt; Acesso em: 02 dez. 2018.

INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE – IPCC.  Global Warming of 1.5ºC. Genebra, Suíça, 2014. Disponível em: < https://www.ipcc.ch/sr15/>. Acesso em: 23 out. 2019.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE – OMS. Ciclones tropicais Idai e Kenneth: relatório da situação nacional. Moçambique, 4 jul. 2019b. Disponível em:< https://www.afro.who.int/sites/default/files/2019-08/SitRep%206_MOZ_17%20%20a%2025%20Jun%202019_PORT.pdf> Acesso em: 24 out. 2019.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Especialista da ONU faz avisos sobre ciclones em Moçambique. ONU News. 25 abr. 2019. Disponível em: <https://news.un.org/pt/interview/2019/04/1669691> Acesso em: 24 out. 2019.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE – OMS. Strengthening the resilience of the Mozambique health system to climate change impacts. Genebra, Suíça, 2019a. Disponível em: <https://www.who.int/globalchange/projects/mozambique-health-climate-impacts/en/>. Acesso em: 24 out. 2019.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE – OMS. World Malaria Report. p.82. Genebra, Suíça. 2018. Disponível em: <https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/275867/9789241565653-eng.pdf?ua=1>. Acesso em: 02 dez. 2018.

ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DE SAÚDE- OPAS.  Folha informativa: malária.  Brasil, 2019. Disponível em: <https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5682:folha-informativa-malaria&Itemid=812>. Acesso em: 23 out. 2019.

TANSER, Frank. SHARP, Brian. SUEUR, David. Potential effect of climate change on malaria transmission in Africa. The Lancet. Reino Unido, v. 362, p. 1792-1798, nov. 2003. Disponível em: <https://www.mara-database.org/docs/15.pdf&gt;. Acesso em: 27 out. 2019. UNITED STATES AGENGY FOR INTERNATIONAL DEVELOPMENT – USAID. Climate Change Adaptation in Mozambique. Washington, EUA, fev. 2012. Disponível em: <https://www.climatelinks.org/sites/default/files/asset/document/mozambique_adaptation_fact_sheet_feb2012.pdf&gt;. Acesso em: 24 out. 2019.


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