Texto Conjuntural: África Austral #5 – A violência xenófoba na África do Sul e sua causa

Por Laura Silveira Curto Coelho

A disseminação de movimentos xenófobos pelo globo tornou-se um assunto recorrente na mídia devido a toda interconexão entre os Estados, consequência da globalização. Temáticas como essa são vistas em noticiários acerca da Grã-Bretanha com os imigrantes que tentam cruzar o turbulento Mediterrâneo em busca de condições melhores, porém, essa questão está presente não apenas no continente europeu, mas em todos, principalmente na África repleta de diversidades.

Sob essa ótica, têm-se os violentos episódios xenófobos na África do Sul ocorridos, mais recentemente, no segundo semestre de 2019, levando ao questionamento: Por que houve essa onda xenofóbica contra, justamente, outros africanos?

 De certa forma, movimentos como esse acontecem, principalmente, devido a desigualdade e o desemprego, sendo, na visão dos cidadãos locais, os imigrantes os culpados de tais fenômenos. No entanto, nesse caso, não são apenas causas econômicas, mas todo reflexo do passado recente que viveu o apartheid visto que, a partir de toda a segregação e dos desdobramentos dela que serão citados posteriormente, conclui-se a questão de que ele foi a verdadeira causa desses ataques xenófobos.

Como supracitado, a África do Sul foi palco da violência xenófoba em setembro de 2019, com vítimas de variados Estados africanos como Nigéria, Zimbábue, Moçambique e Somália. Inúmeros ataques contra imigrantes foram realizados e levaram a uma completa crise diplomática entre os governos imersos na situação. À vista disso, protestos na Nigéria, Zâmbia e República Democrática do Congo materializaram-se, a companhia aérea Air Tanzania suspendeu voos para o país, times esportivos cancelaram disputas contra times sul-africanos, todos atos para enfatizar a insatisfação acerca do que vinha ocorrendo com seus cidadãos em territórios sul-africano. O presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, em uma comitiva de imprensa, afirmou que:

Nenhuma forma de raiva, frustração ou lamentação pode justificar estes atos de destruição e criminalidade arbitrária. Não pode haver desculpa para os ataques a residências e empresas de estrangeiros, assim como não pode haver desculpa para a xenofobia ou qualquer forma de intolerância (DW, 2019, s.p.).

Nesse sentido, a falta de justificativa para ataques xenófobos e tal intolerância exibida dentro do território sul-africano deve ser analisada, visto que, por serem condutas contrárias e que infringem os Direitos Humanos, deve-se investigar as possíveis causas desses acontecimentos de forma a evitar que sigam se repetindo. Pretextos de âmbito econômico são os mais explícitos como as circunstâncias e “justificativas” dadas para a ação dos cidadãos. Em primeiro lugar, destaca-se que essas questões econômicas refletem diretamente na desigualdade social e sua coligação com o apartheid. Assim, cidadãos negros, jovens, com o desemprego em 29% (FOLHA DE SÃO PAULO, 2019), praticam a xenofobia violenta, provavelmente, por entenderem que os imigrantes dos Estados vizinhos, ao buscar condições melhores ou apenas migrarem sem objetivo econômicos, estariam tomando as vagas escassas que deveriam ser dos sul-africanos (SANTOS, 2018, p.3).

Como colocado pelo chefe de Estado Cyril Ramaphosa, a raiva pelo desemprego não é razão para o assassinato e vandalização daqueles que conquistaram seus bens e serviços fora de seu país de origem. De toda forma, a África do Sul sofre de uma desigualdade aguda (WORLD INEQUALITY LAB, 2018) e, mesmo que não seja justificativa, deve ser buscada uma solução, uma vez que causa consequências sociais e diplomáticas desagradáveis e prejudiciais para os cidadãos, os quais deveriam ter seus direitos protegidos pelo Estado.

Em segundo turno, enraizado historicamente na sociedade sul-africana, o apartheid foi um regime de segregação racial posto em prática em 1948 por um governo da minoria branca do Estado. O regime era determinado por uma rigorosa obrigação de separação entre negros e brancos, em que apenas brancos votariam, viveriam nas melhores propriedades, casariam apenas entre si e outras diversas restrições (BRAGA, 2019, p. 11-12).

O apartheid, como proposto na reportagem da Folha de São Paulo “Desigualdade global”, ao obrigar os negros a viverem em áreas próprias, acabou criando imensas zonas desiguais nas cidades ao redor da África do Sul, principalmente na Cidade do Cabo. Por consequência disso, esses espaços abrigam, atualmente, as maiores favelas do país, algumas com cerca de 600 mil moradores, como Khayelitsha, e levam consigo a extrema precariedade que conduz o Estado a sua classificação de mais desigual do mundo, onde 10% da população aglutina 65% de toda a renda do país (FOLHA DE SÃO PAULO, 2019).

Por conseguinte, ao correlacionar o que foi mencionado acima com os ataques no segundo semestre de 2019, pode-se aduzir que a desigualdade social e o alto índice de desemprego têm sido um importante fator para a ocorrência dessas ondas xenófobas entre negros. Vale ressaltar que, com relação ao índice de 29% de desemprego já citado, para os brancos, esse número é de apenas 7,5%, de maneira que, pode-se dizer que existe imensa dificuldade entre os negros para ter um emprego formal, enquanto que, para os brancos, essa dificuldade é muito menor.

A partir de todo o contexto, Cyril Ramaphosa, o responsável por decretar políticas  para gerar empregos a fim de melhorar a condição econômica dos cidadãos, por exemplo, encontra o cenário deixado pelos presidentes passados de que houve a diminuição da disparidade de renda entre negros e brancos, como colocado pelo Relatório de Desigualdade Global produzido na Escola de Economia de Paris (FOLHA DE SÃO PAULO, 2019). Todavia, mesmo que houvesse uma redução no caso citado, a desigualdade aumentou dentre os negros devido a competitividade criada entre eles pelo apartheid, o que não melhorou seus índices (FOLHA DE SÃO PAULO, 2019).

Em suma, a onda xenófoba se mostra como uma das consequências do que o apartheid produziu na sociedade sul-africana, a partir das quais houve o agravamento das questões econômicas e sociais, levando a essa aversão ao estrangeiro e a opiniões como  “O que ele veio fazer no meu país?”. Dessa forma, não são as causas e sim a causa dessa violência que vai além de apenas alguns grupos de habitantes revoltosos. Porém, mesmo com o que foi colocado, não são justificáveis as atitudes tomadas frente a esse problema, no caso a violência extrema contra aqueles que buscam o mesmo que os próprios cidadãos, um emprego. Ao escapar de seu país de origem, o imigrante não vai para roubar o emprego do próximo, e, sim, escapar de situações de calamidade alimentar, conflitos, pobreza e outras derivadas razões que resultam em atitudes como essa.

REFERÊNCIAS

BRAGA, Pablo de Rezende Saturnino. A rede de ativismo transnacional contra o apartheid na África do  Sul. 2010. Dissertação (Mestrado em Relações Internacionais) – PUC-Rio, Rio de Janeiro, 2010. Disponível em: https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/35269/35269_4.PDF. Acesso em: 7 jun. 2020.

CANZIAN, Fernando. Desigualdade global: África do Sul. Folha de São Paulo, [S.l], 12 ago. 2019. Desigualdade global. Disponível em: https://temas.folha.uol.com.br/desigualdade-global/africa-do-sul/apartheid-e-cidades-de-lata-marcam-o-pais-mais-desigual.shtml. Acesso em: 28 maio 2020.

G1. Entenda a onda de violência xenófoba na África do Sul que deixou mortos e gerou boicotes. G1, [S.l], 6 set. 2019. Mundo. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/09/06/entenda-a-onda-de-violencia-xenofoba-na-africa-do-sul-que-deixou-mortos-e-levou-a-boicotes.ghtml. Acesso em: 13 maio 2020.

INEQUALITY.ORG. Global Inequality. [S.l], [201-]. Disponível em: https://inequality.org/facts/global-inequality/. Acesso em: 7 jun. 2020.

LUSA, Agência. Violência na África do Sul reflete problemas sociais e económicos. DW, [S.l], 6 set. 2019. Internacional.  Disponível em: https://www.dw.com/pt-002/viol%C3%AAncia-na-%C3%A1frica-do-sul-reflete-problemas-sociais-e-econ%C3%B3micos/a-50331013. Acesso em: 13 maio 2020.

SANTOS, Kennya Souza. Xenofobia na África do Sul pós-apartheid: violência e o conceito de ubuntu pelo traço de zapiro. 2010. Disponível em: http://www.eeh2018.anpuh-rs.org.br/resources/anais/8/1532397930_ARQUIVO_XENOFOBIANAAFRICADOSULPOS-APARTHEID-KennyaSouzaSantos.pdf. Acesso em: 28 maio 2020.


Um comentário sobre “Texto Conjuntural: África Austral #5 – A violência xenófoba na África do Sul e sua causa

  1. Muito rico esse material. Ainda mais quando vem de uma pessoadedicada em seus objetivos de vida. Parabéns Laura. Suas colocações, texto de propriedade.

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