Texto Conjuntural: Cone Sul #10 – A volta do regionalismo aberto

O Fim da UNA SUL e o início do PROSUL: a volta do regionalismo aberto

Por Nathália Fernandes Amorim

No início de 1990, logo após o fim da Guerra Fria e, consequentemente, no momento da ascensão da unipolaridade Estadunidense, os processos de globalização com vertentes neoliberais se tornaram cada vez mais presentes (CORREA, 2015). Foi neste período que o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) foi criado, dentro de uma perspectiva de integração regional na América do Sul. Tal integração era majoritariamente econômica, seguia o Consenso de Washington e tinha forte presença dos conceitos neoliberais difundidos pelos Estados Unidos. Este era o momento do novo regionalismo, que mais tarde seria denominado regionalismo aberto pela CEPAL (EUZEBIO, 2016). O novo regionalismo, ou regionalismo aberto, foi então um modelo neoliberal de integração regional no qual se concentrou nas relações econômicas e de comercio internacional dentro da América Latina, a partir dos anos 90 (LIMA, 2019).

Porém, nos anos 2000, surgiu um movimento na América Latina denominado “onda rosa’’, que se caracterizou pela ascensão de governos progressistas, e ressignificou a integração regional para os países da região. Durante este período, o regionalismo pós hegemônico vigorou, momento no qual os governos de esquerda compreenderam a necessidade de ir além da integração regional econômica, e introduzir a agenda política e social no regionalismo, com forte presença estatal (LIMA,2015).  O regionalismo pós-hegemônico emergiu a partir da construção de uma identidade latino-americana que compreendia o contexto histórico da sua região como semelhante entre os Estados do bloco latino-americano e, por isso, não deveria se limitar a um regionalismo com vertente neoliberal que privilegiava relações com grandes potências, pois dessa maneira estavam apenas perpetuando a exploração na sua própria região. Os governos progressistas trouxeram o princípio da compreensão da incapacidade da América Latina de se desenvolver da mesma maneira que os países do norte global, tendo em vista que Estados latino-americanos haviam sido suas colônias de exploração no passado (LIMA,2015). Sendo assim, os governos de esquerda buscaram ultrapassar a integração regional econômica, e desenvolver a integração política e social também, sendo de interesse para o fortalecimento do bloco regional diante do sistema internacional, que levaria a uma certa autonomia internacional (LIMA,2015).

Dessa maneira, a partir da consolidação do modelo neoliberal após a afirmação dos Estados Unidos como potência unipolar no pós Guerra Fria, institucionalizou-se o regionalismo aberto na América Latina, principalmente na América do Sul, com a criação do Mercosul. Porém, com a ascensão de governos de esquerda na América Latina, o regionalismo pós-hegemônico emergiu. Isso modificou blocos já institucionalizados, como o Mercosul, que possuía uma agenda estritamente econômica, e passa a abranger questões políticas e sociais. Além disso, o regionalismo pós-hegemônico levou a criação de novos blocos na região, como a UNA SUL, criada em 2008.

A Una Sul, que foi vista por vários países como sinônimo de resistência frente a unipolaridade estadunidense, representou a possibilidade de autonomia da América do Sul (NERY, 2016).  Dentro da Una Sul, coexistiu o Mercosul, a Aliança do Pacífico e a Alba, que possuíam vertentes distintas, mas de forma uníssona, buscavam autonomia da região, e entendiam que a América do Sul precisava se projetar internacionalmente de maneira conjunta, afirmando sua capacidade de atuação como um bloco (NERY, 2016). A Una Sul veio como uma tentativa de articular politicamente os países da América do Sul, para que se tornassem mais autônomos (NERY, 2016). Os principais objetivos da Una Sul diziam respeito a políticas sociais, infraestrutura, meio ambiente, financiamento, energia e diálogo político entre os participantes (NERY, 2016). Vê-se muito a questão identitária na criação do bloco, abordada anteriormente. Os países da América Latina, e, neste caso, especificamente da América do Sul, buscaram materializar a sua identidade coletiva dentro de um bloco com objetivos de desenvolver a região como um todo sem deixar de lado seu contexto histórico, e sem se espelhar em integrações regionais de países do norte global. Foram além da integração econômica, e focaram também na integração política, o que foi um dos principais constituintes da Una Sul. A Una Sul contribuiu amplamente para a formação de um polo sul-americano (NERY, 2016). Alguns exemplos de tal contribuição foram a sua atuação em situações como o terremoto no Haiti, em 2010, a crise na Bolívia em 2008, sua atuação acerca da criminalização de imigrantes, entre outros (NETO, 2020).

Entre 2012-2014, o regionalismo pós-hegemônico se tornou obsoleto para representação dos países latino-americanos e, consequentemente, sul-americanos. Com o fim da ‘’ onda rosa’’, o declínio do domínio de governos de esquerda na região, percebe-se um movimento de volta ao regionalismo aberto. Esse movimento vem com características muito especificas, que pode ser bem representado pelo atual governo brasileiro, de Jair Bolsonaro, que é o conservadorismo ideológico, mas com economia liberal. Com isso, organizações regionais como a Una Sul, que possuía um viés progressista, que focava na construção da autonomia do bloco e se voltava para agendas de desenvolvimento do meio ambiente, da área da saúde e educação, e não apenas para questões econômicas, deixa de ser útil para os governos de direita, que acreditam na integração regional voltada apenas para questões econômicas, e mostram isso em suas ações. A construção identitária da América Latina, que tem sua ascensão com governos progressistas, se torna uma ideologia não mais ‘’ utilizável’’ para governantes de direita, e acaba entrando em crise.

Em 2018, vários países de afastaram do bloco Una Sul: Brasil, Argentina, Chile, Peru, Colômbia, Paraguai (NETO, 2020). Com isso, a Una Sul é substituída por uma organização regional que atende à demanda destes novos governos: o Fórum de Progresso para a América do Sul (PROSUL), que foi criado em 2019, a partir de negociações entre Brasil e Chile (NETO, 2020). O Prosul surge pela ascensão de governos de direita na América do Sul (com exceção da Argentina, que recentemente elegeu um presidente centro-esquerda), e tais governos não corroboram com a construção da identidade latino-americana, tornando a nova organização regional algo pragmático. A temática nos documentos do Prosul se assemelham aos documentos da Una Sul, mas os discursos políticos e os objetivos dos governantes de direita são muito diferentes daqueles expostos pelos antigos governantes, quando a Una Sul ainda vigorava (NETO, 2020).

Em conclusão, é perceptível a volta de questões do século passado. Essa afirmação é possível tendo em vista que o regionalismo aberto teve seu auge na América do Sul na década de 90, quando os países do bloco sul-americano possuíam um alinhamento direto com os Estados Unidos. Porém, nos anos 2000, tal alinhamento foi entendido como prejudicial para a América Latina como um todo, e, consequentemente, para a América do Sul, tendo em vista que tal situação consolidou uma dependência econômica e política dos países sul-americanos com a potência estadunidense, que levou a estagnação de um possível desenvolvimento da América do Sul. Isso acabou gerando grandes desigualdades sociais na região, grande acúmulo de riquezas para uma pequena parcela da população, parcela esta que se relacionava diretamente com as empresas privadas estadunidenses, que exploravam nossa região e perpetuavam a dependência econômica, sem desenvolvimento real. A população latino-americana demonstrou sua insatisfação ao eleger governantes progressistas de maneira uníssona, o que ficou conhecido como “onda rosa’’. Tais governantes buscaram compreender como utilizar o regionalismo a favor da América do Sul, e assim se consolidou o regionalismo pós-hegemônico, que buscou tratar as questões econômicas, sociais e políticas de maneira igualitária, com forte intervenção estatal, para diminuir a desigualdade social muito consolidada pelo regionalismo aberto.

Quando a onda rosa chegou ao fim na América Latina, ressurgiu um movimento a favor de governantes de direita. Os governantes de direita populistas trouxeram consigo promessas não cumpridas e a afirmação dos benefícios para a pequena parcela da população detentora da maior parte das riquezas nos países latino-americanos, e consequentemente, sul-americanos. Neste momento é possível perceber um retrocesso em relação a integração regional da América do Sul, tendo em vista que governos de direita vão contra ideologias identitárias e a favor da consolidação do poder estadunidense dentro de seus Estados, esquecendo da contextualização histórica, da situação de dependência, que vinha sendo mudada pela tentativa de maior autonomia a partir do regionalismo pós-hegemônico. O fim da Una Sul e a institucionalização do ProSul marca exatamente isso: as questões econômicas novamente se sobressaindo diante da agenda política e social, a estagnação do desenvolvimento de tais agendas, e consequentemente, o desmantelamento da construção da autonomia do bloco sul-americano.

Dessa maneira, é perceptível o retrocesso dos países da América do Sul pelos seus governos de direita, que reproduzem suas ações a partir de uma tentativa de se igualar ao desenvolvimento de grandes potências, sendo que no passado, já havíamos entendido que isso é impossível tendo em vista nosso contexto histórico, e foi por este contexto que construiu-se a identidade latino-americana, que agora se tornou apenas uma ideologia da esquerda, de acordo com os governos de direita.

Referências

NETO, Octávio Forti. Da UNASUL para o PROSUL: A visão do Estado de Direito e o Regionalismo latino-americano In: Revisa Conjuntura Global. V.9, n.1 (2020).

NERY, Tiago. UNASUL: a dimensão política do novo regionalismo sul-americano. In: Caderno CRH, Salvador, v. 29, n. 3, p. 59-75, 2016.

CORREA, Isabela Furegatti. Um estudo sobre a evolução do MERCOSUL: do regionalismo aberto ao regionalismo pós-hegemônico. São Paulo, 2015.

LIMA, Gabriela Rabello de. Regionalismo e política social: um estudo sobre a agenda social do MERCOSUL. Rio Grande do Sul, 2019.

EUZEBIO, Douglas Fabian Silva. A integração regional da América Latina à luz da teoria construtivista: entre o regionalismo aberto e o regionalismo pós-liberal. Rio Grande do Sul, 2016.

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