Texto Conjuntural: África Austral #11 – A Cozinha Incrível de Anesu: o cinema africano como meio de quebrar estereótipos

Por Joice Soares Silva

A Cozinha Incrível de Anesu: o cinema africano como meio de quebrar estereótipos

A Cozinha Incrível de Anesu (Cook Off, 2017) é o primeiro filme zimbabuano no serviço de streaming da Netflix, que já lançou outros filmes e séries africanos. O filme conta a história de Anesu, cozinheira incrível e mãe solo, que é inscrita por seu filho em um reality show culinário, o Batalha dos Chefes, onde desenvolve suas habilidades culinárias, concorre a um prêmio e tem um romance com um dos participantes (VIDIGAL, 2020). A produção cinematográfica que busca retratar a realidade em diferentes países africanos, de modo geral, não é originária do próprio continente, de maneira que acaba sendo reproduzida uma imagem distorcida e, no mais das vezes, pejorativa. Posto isso, o objetivo desta análise será apresentar como o filme retrata o Zimbabwe, em contraposição a outras representações de países africanos em filmes estadunidenses. Por fim, serão apresentados conceitos sobre estigmas e estereótipos advindos e estimulados pelo cinema estrangeiro.

Antes de se discutir sobre o longa aqui em foco, é relevante comentar acerca dos problemas gerados a partir da hegemonia da produção cinematográfica proveniente de países do Norte global, com ênfase nos Estados Unidos, o que faz com que seja retratada uma visão oriunda de uma realidade específica. O cinema estadunidense, popularmente conhecido por Hollywood, é o que mais lança filmes por ano em comparação a outros países, e sua popularidade mundial é incontestável. Vários filmes ambientados na África, desde clássicos a besteiróis, como “As Minas do Rei Salomão”, “Incontrolável Paixão” e “Ace Ventura: Um Maluco na África”, mostram um ambiente inóspito habitado por selvagens (LEIBOWITZ, 2009).

O modo como essas narrativas retratam a África e os estereótipos que são projetados sobre os africanos é discutido pela escritora e palestrante nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie em sua palestra no TED, “O Perigo da História Única”, disponível no YouTube. Por meio de sua vivência e estudos, ela conta sobre os estereótipos projetados, advindos da única narrativa sobre a África, era contada pelo cinema mainstream. Em alguns dos relatos, comenta que, por exemplo, sua colega de quarto queria saber como ela sabia falar inglês (sendo que a língua natal da Nigéria e outros países africanos é o inglês), qual era a música de sua tribo e ficou surpresa ao ver que Chimamanda sabia como usar um fogão (ADICHIE, 2009).

O filme que inspirou essa análise, A Cozinha Incrível de Anesu, é zimbabuano, ambientado e estrelado por africanos, que mostram um lugar e pessoas totalmente distinto da maneira feita nos filmes estadunidenses. Ao contrário do que é mostrado nas produções estrangeiras, os africanos não são selvagens incivilizados e ignorantes, pelo contrário, são pessoas inteligentíssimas e criativas, em um ambiente amigável e produtivo (COOK, 2017).

A personagem principal, Anesu, gosta de programas nacionais e cozinha muito bem, sendo sempre elogiada pelos demais por suas habilidades culinárias e faz planos para abrir seu próprio negócio. Com isso, ela decide participar de um reality show nacional, bem produzido e com participantes muito talentosos. Ademais, seu filho tem acesso à educação de qualidade e gosta de praticar esportes (COOK, 2017). Nota-se, portanto, a diferença na percepção sobre o local e o indivíduo africanos, nesse caso, zimbabuanos.

A respeito dessas diferentes formas de retratar, o conceito de história única, de Chimamanda, dialoga com o livro “Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada”, de Erving Goffman, que disserta sobre a assimilação e projeção das expectativas e pré-conceitos sobre pessoas diferentes de nós (GOFFMAN, 1981). Conforme o autor:

(…) É provável que, em situações sociais onde há um indivíduo cujo estigma conhecemos ou percebemos, empreguemos categorizações inadequadas e que tanto nós como ele nos sintamos pouco à vontade. Há, é claro, freqüentemente, mudanças significativas a partir dessa situação inicial. E, como a pessoa estigmatizada tem mais probabilidades do que nós de se defrontar com tais situações, é provável que ela tenha mais habilidade para lidar com elas (GOFFMAN, 1981, p. 19).

Em sua palestra, Chimamanda retrata a discussão trazida por Goffman quando conta que, ao se mudar para os Estados Unidos para estudar, sua colega de quarto a via como uma pessoa incapaz e fazia perguntas constrangedoras, baseada em uma visão estigmatizada que viu sobre africanos nos filmes estadunidenses. Na citação acima, Goffman comenta que projetamos no indivíduo um estigma que temos sobre ele, no caso de Chimamanda, um estigma criado pelo cinema (ADICHIE, 2009).

Tecendo críticas sobre o assunto, Andréia França fala sobre a filmografia fora do eixo Estados Unidos e Europa, trazendo exemplos latinos para falar sobre “cinema periférico”, que seriam cinemas nacionais feitos para falar sobre uma questão política, econômica e/ou social do local em que é produzido, como o longa cubano Memórias do subdesenvolvimento (FRANÇA, 2008). A autora pondera que

compartilhar a tese de cinematografias periféricas seria apenas dar continuidade ao discurso que vê nesse cinema a expressão geográfica de territorialidades miseráveis e à margem da ordem capitalista global, a expressão da própria situação coletiva de atraso e opressão, situação essa que forneceria a base histórica para a construção (potencial) de uma arte política (FRANÇA, 2008, p. 397).

Ao rejeitar a ideia de cinema periférico, Andréia adere a noção de cinema de terras e fronteiras, que busca não retratar um país fragilizado e em crise apenas, mas abarcando todas as suas singularidades e expressões culturais, trazendo um cinema mais rico:

O que se quer pensar é um cinema de resistência que passa pela necessidade de reinventar as fronteiras, construir novas relações e insistir na miscigenação e na diversidade como forma de produção da realidade por vir (…)  Um cinema de terras e fronteiras aposta na necessidade de repensar as culturas como misturas e não como territórios simbólicos cristalizados, estanques, imemoriais (FRANÇA, 2008, p. 398).

Tanto “A Cozinha Incrível de Anesu” quanto outros filmes africanos, como os que estão disponíveis em serviços de streaming, se encaixam na categoria de cinema de terras e fronteiras, pelo modo que escolheram para retratar a vida e dilemas dos africanos, em contraponto ao estereótipo apresentando em outros cinemas. Isso pode ser visto ao, por exemplo, serem representados personagens complexos e bem construídos, inteligentes, sensíveis e talentosos, e também em seu ambiente e atividades cotidianas em esportes, programas televisivos e outros.

Para além deste filme da Netflix, outras iniciativas estão buscando trazer visões distintas sobre a África, como Wanuri Kahiu, cineasta queniana que, além de ter diversos filmes premiados, fundou a Afrobubblegum, um coletivo focado em cinema africano, com conteúdos relacionados a África contada e vivida pelos africanos. Ela busca quebrar com os estereótipos tão difundidos por filmes estrangeiros sobre a África, que focam em retratar pobreza, fome, doenças e guerras civis. A Afrobubblegum cria conteúdos que mostram o cotidiano dos africanos, com outras visões que trazem riqueza, tecnologia, empatia e muita cultura. Os personagens criados pelo coletivo vivem momentos divertidos e alegres, indo em contramão de filmes estrangeiros que retratam os africanos em sofrimento ou passando por problemas financeiros, quebrando assim, o estereótipo da África sofrida e pobre (KAHIU, 2018).

O cinema africano, como apontado nos exemplos acima, estão usando de novos elementos e narrativas do cinema de terras e fronteiras para quebrar estigmas criados, repetidos e fixados no cinema mainstream, os quais levaram a criação de uma imagem e de uma história única, que leva ao estranhamento e constrangimento quando, de fato, nos deparamos com o indivíduo estigmatizado, como aponta Goffman. Sendo assim, como se analisou, o cinema africano é uma ferramenta de grande valia para cultura e transformação e revalorização de outras realidades.

Referências:

ADICHIE, Chimamanda. O perigo de uma história única. 2009. (19m16s). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=D9Ihs241zeg&ab_channel=TED>. Acesso em: 08 nov. 2020.

BAPTISTA, Mauro; MASCARELLO, Fernando. FRANÇA, Andréia. Cinema Mundial Contemporâneo. Capítulo 16: Cinema de terras e fronteiras.  Campinas: Editora Papirus. 2008.

COOK off. Direção de Tomas Brickhill. Zimbabwe: Producão Joe Njagu, 2017 (79 min.).

GOFFMAN, Erving. Estigma: Notas Sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada. Quarta edição. Editora LTC, 30 out. de 1981.

KAHIU, Wanuri. Afrobubblegum, 2018. Acreditamos em uma representação divertida, feroz e frívola da África. Disponível em: https://www.afrobubblegum.com/ Acesso em: 05 nov. 2020.

LEIBOWITZ, Ed. Filmes de Hollywood sobre África ficam no clichê. Uol, Nova York, 11 de Abril de 2005. Seção Mídia Global. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2005/04/11/ult574u5298.jhtm Acesso em: 14 dez. 2020

VIDIGAL, Suzana. A Cozinha Incrível de Anesu. Vida Simples, edição 224, outubro de 2020. Coluna Suzana Vidigal. Disponível em:<https://vidasimples.co/colunistas/a-cozinha-incrivel-de-anesu-de-tomas-brickhill/> Acesso em: 05 nov. 2020.


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