Texto Conjuntural: Chifre da África #33 – Os temores de guerra civil na Etiópia e a ameaça à segurança da Eritreia

Maria Eduarda Souza Satlher

Palavras-chave: TPLF; Abiy Ahmed; Eritreia; disputa política.

INTRODUÇÃO

         Em 2019, Abiy Ahmed, o primeiro-ministro da Etiópia, recebeu Prêmio Nobel da Paz “por seus esforços para alcançar a paz e a cooperação internacional e, em particular, por sua iniciativa decisiva para resolver o conflito fronteiriço com a vizinha Eritreia” (NOBEL PRIZE, 2019). Desde que tomou posse, em 2018, Abiy implementou grandes mudanças, a fim de desconectar a ideia de Estado autoritário à Etiópia. Entretanto, as medidas de Abiy causaram muitas movimentações por parte dos seus rivais políticos, em que o principal deles é o partido da Frente de Libertação do Povo Tigray (TPLF). A TPLF sempre foi muito influente no governo federal desde o fim do regime marxista em 1991, porém, devido a ascensão de Abiy eles perderam sua influência política, e desde então a rivalidade política entre o governo federal da Etiópia e o governo regional do Tigray vem aumentando (BBC, 2020). Nesse sentido, questiona-se: como a Eritreia é afetada nesse meio instável, visto que é um país fronteiriço e que já manteve relações tensas com a Etiópia e com a TPLF?

AS RESPOSTAS DA TPLF ÀS POLÍTICAS DE ABIY AHMED


Fonte: ISS AFRICA, 2020

         A Frente de Libertação do Povo Tigray (TPLF) esteve à frente do governo da Etiópia desde a queda do regime marxista, em 1991. Após a queda do imperador Haile Selassie, em 1974, foi instaurado um regime militar comandado pela junta militar Derg que cobriu toda Etiópia com o chamado “Terror Vermelho”. Durante os anos do regime milhares de jovens foram assassinados, haviam bombardeios diariamente, a fome e a pobreza eram evidentes, além de muitos refugiados saindo do país. A TPLF teve um papel importante ao liderar a Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope (EPRDF), uma coalizão multiétnica composta por quatro partidos que derrotou o regime militar marxista em 1991.

A partir daí, como o líder da EPRDF era um tigrayan, a TPLF ganhou muita influência política nesse governo, considerado autoritário, que durou 27 anos. Nesse sentido, quando Abiy Ahmed foi eleito primeiro-ministro da Etiópia, em 2018, foram implementadas políticas com viés mais “reformistas”, e pela TPLF ser contra a maioria delas, o partido viu sua autoridade nacional acabar, sendo obrigado a recuar para sua sede regional em Mekelle, capital do Tigray (BBC News, 2020).

         Nesse sentido, “eleito como um “líder reformista”, o novo primeiro-ministro acusou ex-funcionários do governo de corrupção e abusos aos direitos humanos e expulsou políticos importantes da TPLF do governo central” (BBC News, 2020). Além disso, Abiy Ahamed, desfez a Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope (EPRDF), que governou o país até então, e formou um novo partido nacional que não era organizado em linhas étnicas, o Partido da Prosperidade (PP). A TPLF recusou a participar do novo partido, alegando que isso dividiria o país, porém os outros três partidos moveram-se para o PP, isolando a TPLF do processo político. Com isso, é possível observar a insatisfação da TPLF com as novas medidas adotadas por Abiy. Além disso, há acusações que, desde que perdeu o poder em 2018, a TPLF tenta sabotar os esforços reformistas do novo primeiro-ministro, fomentando conflitos por meio da organização, treinamento e financiamento de forças contrárias ao governo federal” (ATLANTIC COUNCIL, 2020).

         Logo no início do seu mandato, o primeiro-ministro se mostrou disposto a pôr fim ao estado de guerra que existia entre a Etiópia e Eritreia. Abiy Amed e Isaías Afewerki, presidente eritreu, assinaram o acordo de paz em julho de 2018, enfatizando a nova era entre os países, de paz e cooperação nas áreas política, econômica, social, cultural e de segurança (ISS AFRICA, 2020). Vale ressaltar, que essa medida foi contra os interesses da TPLF, já que a região do Tigray faz fronteira com a Eritreia, e a TPLF apoiou fortemente a guerra entre os países a fim de expandir seu território. O acordo entre os líderes africanos, incluia que a Etiópia cedesse à Eritreia a cidade de Badme, o epicentro da guerra de 1998 a 2000, o que provocou mais descontentamentos por parte da Frente de Libertação do Povo Tigray, que alegou que seus interesses foram negligenciados, pois sua região perderia território, mesmo tendo vencido a guerra anos atrás (BBC, 2020).

         Após muitas insatisfações com o governo de Abiy, a FPLF agiu após o Conselho Eleitoral Nacional da Etiópia (NEBE), adiar temporariamente as eleições nacionais e regionais, que aconteceriam em para agosto de 2020, com o fim de prevenir o contágio da COVID-19 (ATLANTIC COUNCIL, 2020). A TPLF afirmou que não foi adequadamente consultada e acusou Abiy de tentar tomar o poder, com isso, o partido ignorou as ordens do governo federal e seguiu com as eleições da região em setembro, como ato de protesto. A votação ocorreu sem nenhuma violência ou tumulto, uma vez que “os dirigentes da região do Tigray tinham avisado que qualquer intervenção do governo federal equivaleria a uma “declaração de guerra”” (DW, 2020). A reação do governo foi anular a eleição, afirmando que era ilegítima, além de cortar laços e congelar o orçamento federal para a região.

Essa resposta gerou ainda mais tensões políticas em toda Etiópia, resultando em ataques comandados pela TPLF a uma base militar federal do Comando do Norte, a fim de roubar equipamentos e material de artilharia das tropas federais. Com isso, o escritório do primeiro-ministro acentuou que o governo federal iria entrar em um enfrentamento militar, mas apenas com o objetivo de acabar com a instabilidade no país (ALJAZEERA, 2020). Sendo assim, os confrontos militares vêm se desenvolvendo na Etiópia desde o dia 4 de novembro de 2020, com ataques e respostas das partes em conflito. Esse cenário traz ameaça de uma guerra civil, incertezas e muita instabilidade, não só para o país, mas para toda região do Chifre da África (TIME, 2020), 

ERITRÉIA FRENTE AO CONFLITO 

         Diante desse contexto conturbado que a Etiópia está passando, a Eritreia, como país fronteiriço e que tem uma relação tensa com o TPLF, vê sua segurança nacional ameaçada. Nesse sentido, a recente reaproximação entre Etiópia e Eritréia, devido ao acordo de paz assinado em 2018, “que inclui a assinatura de um acordo de paz e a promessa de Abiy de honrar uma decisão das Nações Unidas, muito violada, sobre a demarcação da fronteira entre os países” (ATLANTIC COUNCIL, 2020), relembra e acentua a rivalidade entre o partido governante da Eritreia, a Frente Popular para a Democracia e a Justiça (FPDJ) e a TPLF.

Nesse sentido, com os conflitos armados, a TPLF acusa a Eritreia de se alinhar com Abiy, mandando tropas e equipamentos para atacar o Tigray e, como resposta, a TPLF bombardeou dois aeroportos da Eritreia nas cidades de Gondar e de Bahir Dar, capital de Amhara. Esses aeroportos são usados por aparelhos civis e militares  em que a Força Aérea Etíope já mandou vários ataques contra o Tigray . Dessa maneira, os representantes da TPLF enfatizam que irão atacar todo aeroporto que for usado para prejudicar sua região, e, além disso, ameaçam atacar infraestruturas em Asmara, capital da Eritreia ou um porto no Mar Vermelho, em Massawa (ESTADO DE MINAS, 2020). 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

  Diante do exposto, o conflito entre o governo federal da Etiópia, ou mais especificamente, entre Abiy Ahmed e a Frente de Libertação do Povo Tigray, causa alta instabilidade, não só no país, como em toda região do Chifre da África. Em uma ameaça de guerra civil, com bombardeios e incertezas, o movimento migratório da população para outros países, em busca de refúgio, é inevitável. Além disso, para um Estado como a Etiópia, que se mostra muito estratégico, qualquer turbulência no país afeta toda a região. As consequências do conflito na Etiópia afetou, especialmente, a Eritreia que é mais vulnerável, por fazer fronteira com a região de oposição e ser rival da TPLF. Sendo assim, a ameaça de guerra civil é real, mas também pode se estender para o país vizinho e retomar o estado de guerra entre eles. 

REFERÊNCIAS

DW, 2019. Um ano do primeiro-ministro Abiy Ahmed e a liberalização do país. 02 abr. 2019. Disponível em : <https://www.dw.com/pt-002/eti%C3%B3pia-um-ano-do-primeiro-ministro-abiy-ahmed-e-a-liberaliza%C3%A7%C3%A3o-do-pa%C3%ADs/a-48170034>. Acesso em: 18 out. 2020.

DW, 2020. Etiópia: Eleições no Tigray “sem violência ou queixas”. 10 set. 2020. Disponível em: <https://www.dw.com/pt-002/eti%C3%B3pia-elei%C3%A7%C3%B5es-no-tigray-sem-viol%C3%AAncia-ou-queixas/a-54874966>. Acesso em: 22 out. 2020.

ISS AFRICA, 2020. The Eritrea-Ethiopia peace deal is yet to show dividends. 11 set. 2020. Disponível em: <https://issafrica.org/iss-today/the-eritrea-ethiopia-peace-deal-is-yet-to-show-dividends>. Acesso em: 11 set. 2020.

THE NOBEL PRIZE, 2019. The Nobel Peace Prize for 2019. 11 out. 2019. Disponível em: <https://www.nobelprize.org/prizes/peace/2019/press-release/>. Acesso em: 22 out. 2020.

BBC, 2020. Why there are fears that Ethiopia could break up. 04 nov. 2020. Disponível em: <https://www.bbc.com/news/world-africa-53807187>. Acesso em: 22 out. 2020.

ALJAZEERA, 2020. Tigray: Ethiopia PM claims army success against TPLF. 04 nov. 2020. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2020/11/4/ethiopia-pm-claims-army-successes-in-tigray-un-expresses-alarm. Acesso em: 05 nov. 2020

ATLANTIC COUNCIL, 2020. Experts react: Understanding the conflict in Tigray. 11 nov. 2020. Disponível em: <https://www.atlanticcouncil.org/blogs/africasource/experts-react-understanding-the-conflict-in-tigray/>. Acesso em: 18 nov. 2020.

TIME, 2020. How Abiy Ahmed, Nobel Prize Laureate, Lost Control of Ethiopia’s Peace. 13 nov. 2020. Disponível em:<https://time.com/5910962/abiy-ahmed-ethiopia-conflict/>. Acesso em: 13 nov. 2020.

ESTADO DE MINAS, 2020. Forças separatistas na Etiópia reivindicam ataques a aeroportos e ameaçam Eritreia. 14 nov. 2020. Disponível em: <https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2020/11/14/interna_internacional,1204821/forcas-separatistas-na-etiopia-reivindicam-ataques-a-aeroportos-e-amea.shtml#:~:text=Os%20aeroportos%20de%20Bahir%20Dar,forma%20independente%2C%20at%C3%A9%20o%20momento>. Acesso em: 15 nov. 2020.

BBC, 2020. 5 pontos para entender por que a Etiópia está ‘à beira de uma guerra civil’ um ano depois que seu primeiro-ministro ganhou o Prêmio Nobel da Paz. 15 nov. 2020. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-54951328.amp>. Acesso em: 18 nov. 2020.


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