Texto Conjuntural: África Ocidental #16

Crise humanitária no Mali: impactos da pandemia e insurreições de grupos radicais.

Izabella Burjaily Lizardo

Já alguns anos, o Mali vem sofrendo uma grave crise política, que, sem precedentes, instala no país seu pior cenário desde a sua independência da França, em 1960. O início da ocupação de grupos jihadistas e tuaregues no norte do país deu-se em meados de 1990, e desde então um conflito vem sendo travado entre os grupos islâmicos, rebeldes separatistas e o Estado central, e que conta inclusive com a intervenção de tropas francesas e organizações internacionais, como órgãos e missões de paz da ONU.

Conhecido ainda por ser um dos países mais pobres do mundo (Global Finance Magazine, 2021), o Mali vem sofrendo golpes de Estado consecutivos, o que gera condenação e ameaça de bloqueio por seus vizinhos. Enquanto isso, a pandemia da COVID-19 só agrava a miséria, o medo e a instabilidade política desde o começo de 2020, cenário em que grupos radicais exploram o seu impacto social em busca de fortalecimento, e onde a disputa pelo governo se potencializa em tempos tão frágeis.

Panorama geral dos grupos que ameaçam a estabilidade do estado do Mali

Dentro deste conflito generalizado, concebido a partir da disputa por poder dentro do Mali, podemos salientar a atuação de alguns grupos principais. É importante destacar a heterogeneidade e divergência de interesses neste aglomerado, pois, afinal, não são compostos necessariamente apenas por alianças terroristas, como cita Jean-Yves Moisseron, do Instituto de Pesquisas para o Desenvolvimento (IRD) da França, em entrevista com a Agência France Presse (AFP) em 2013.                                                                                                             

Os jihadistas, nome em destaque na guerra do Sahel, são grupos terroristas islamitas radicais, filiados ao Estado Islâmico e Al-Qaeda. Em suas diversas derivações e nomenclaturas, é comum se observar que alguns interesses são mais aflorados que outros, dependendo do grupo. Entre eles estão a disseminação da lei islâmica, a criação de zonas de tensão permanente na região do Sahel (sul do Saara), e ainda dentro de alguns, lutas por rivalidades pessoais e tribais muito complexas em relação a componentes étnicos presentes no território, de acordo com Moriesson e o tunisiano Allaya Allani, especialista em movimentos islamitas do Magreg, em entrevista com a AFP em 2013.

Mapa da ocupação de grupos jihadistas no território do Mali. (Fonte: Oxford Analytics)

Para além desses vários componentes, existem também em destaque as rebeliões dos tuaregueses, uma etnia tradicionalmente nômade pertencente a linhagem dos árabes-berberes. O grupo insurge movimentos e uma série de revoltas separatistas que lutam pela autonomia e emancipação frente ao governo central, envolvendo motivações, atores e estratégias complexas, que resultam em múltiplas territorialidades, como analisa Pierre Boilley, especialista do movimento tuaregue em entrevista com a AFP em 2013.

De acordo com os especialistas em movimentos islamitas citados anteriormente, desde o começo da crise malinense e da inflamação das rivalidades complexas entre as componentes étnicas presentes dentro do território, é difícil a avaliação deste “inimigo”, que ora se une devido a momentos de intervenções militares estrangeiras mais intensas, ora se demonstram elos de uma aliança frágil e instável, afinal de contas, segundo Moisseron, é quase inevitável que grupos que lutem contra o mesmo Estado central não se envolvam de alguma forma.           

Frente as pressões intensas e intervenções estrangeiras, alguns desses radicais tendem a se unir em determinados momentos, na tentativa de colocar a divergência de interesses de lado e lutarem para se fortalecerem diante das afrontas com forças armadas nacionais e estrangeiras, acrescenta o especialista. Por outro lado, com essa mesma rapidez, são capazes de desfazer alianças e travar conflitos entre si e contra o governo central. Assim, o cenário é transformado em uma grande guerra generalizada que só dissemina terror e fatalidades meio a população, em ataques que parecem não ter fim.

Gráficos de 2019 que reportam detalhes dos ataques na região do Sahel, mais especificamente em Mali, Burkina Faso e Niger. (Fonte: U.S Department of State)

Grupo rebelde islâmico no Mali. (Fonte: EBC)

Fragilidade do aparato governamental

 Além das ameaças dos movimentos radicais no território do Mali, a legitimidade do governo malinense vem sendo amplamente comprometida devido aos frequentes golpes de Estado e disputa por poder das forças internas presentes no aparato governamental. Passando por graves crises de tempos em tempos, o país sofreu dois golpes militares em 2012, e, em agosto de 2020, um novo golpe de Estado forçou o presidente Ibrahim Boubacar Keïta, eleito em 2018, a renunciar o poder. Logo, uma junta militar, que prometeu um governo transitório até novas eleições, manteve a população malinesa sob um regime de caráter ditatorial, que acabou por provocar mais instabilidade e medo na região, além de grandes receios e condenações no cenário internacional.  

Não obstante, em um cenário político bastante instável, em maio de 2021, militares derrubam os cooptados da junta de transição do penúltimo golpe, o que Raul Braga Piris, no Diário de Notícias (2021) chama de o “golpe dentro de um golpe”, segundo ele: “no passado dia 24 de maio, voltou a agosto de 2020. Os militares desse agosto derrubaram agora os cooptados do penúltimo golpe que destronou o presidente (PR) Ibrahim Boubacar Keita”. As trocas de poder, em sua maioria na forma de golpes de Estado consecutivos, são sustentadas com a alegação de que cada chefe ou junta anterior não combatia com eficiência a ameaça terrorista e as ocupações rebeldes no país, ou simplesmente por não ter respondido de forma adequada aos problemas da crise.

Na foto, Ismael Wague, líder golpista e militares aliados em 2020.  (Fonte; DW Notícias)

Diante das circunstâncias apresentadas, fica claramente mais laborioso o combate às insurreições radicais, já que a fragilidade e ausência de estratégias sólidas e concisas do aparato governamental malinense abre portas para uma ocupação cada vez mais substancial ao longo do território. Justamente por essa insuficiência em deter a violência ou até mesmo provocar um diálogo pacífico, as forças armadas estrangeiras e missões de organizações internacionais frequentemente realizam intervenções no território, o que potencializa as tensões no local.

Movimentos radicais e pandemia

Ademais, com a pandemia da COVID-19, vem sendo observada uma certa exploração das circunstâncias da crise sanitária em que o país se encontra por parte de grupos radicais, para estimular o caos, ataques e o ganho de mais adeptos através da disseminação de informações falsas e narrativas religiosas extremas (Washington Post, 2021). Para além, de acordo com Steven Stalinsky, diretor-executivo do Instituto de Pesquisa em Mídia do Oriente Médio (MEMRI) ao Washington Post em 2021, alguns indícios indicam inclusive que o coronavírus pode ter sido já usado como arma biológica, no intuito de contaminar inimigos.   

Ainda de acordo com o jornal estadunidense, aumentaram os esforços de recrutamento e o encorajamento de ataques, motivados pelo desenvolvimento de teorias conspiratórias cheias de ódio sobre o novo coronavírus. Grupos radicais islâmicos estão usando a pandemia para empurrar seus credos extremistas, chamando o vírus de um ato de Deus contra os inimigos do Islã. Eles também estão tentando fomentar a oposição violenta aos líderes no Oriente Médio, descrevendo aqueles que desencorajaram reuniões religiosas e outras grandes reuniões como profanadores da fé, o que amplia a violência e o medo no território.

Ainda sim, a crise humanitária do país não para por aí. A pandemia do coronavírus com seus impactos econômicos, empobreceu especialmente o setor agrícola, onde 70% da força de trabalho malinense é empregada (Vatican News, 2021). Com as medidas de fechamento, os trabalhadores do primeiro setor ficaram sem renda e, portanto, promover a segurança da população e melhoria econômica e humanitária parece um futuro cada vez mais distante e complexo. Não há dúvida de que a pandemia tenha agravado todos os fatores antes já presentes, pois nesta grave emergência os que lucram são as milícias étnicas e os movimentos jihadistas, que eles capitalizam o descontentamento da população que empobrece cada vez mais através de novos recrutamentos, explorando a raiva popular e transformando-a em violência.

A situação de emergência causada pela contaminação desenfreada por COVID -19, a estagnação econômica, corrupção, violência de grupos armados e protestos, são os principais desafios que o Mali enfrenta no momento. Apesar de talvez silenciosa em relação ao que acontece com o resto da comunidade internacional, essa guerra generalizada contra tudo e todos, que tira vidas e a paz da população há anos, e de acordo com Marco Di Liddo em entrevista ao Vatican News em 2020, não tem previsão para acabar enquanto não houver diálogo entre os grupos insurgentes e as autoridades.

REferencias

MEKHENNET, Souad. Far-right and radical Islamist groups are exploiting coronavirus turmoil. Washington Post. 10 de abril de 2020. Disponível em: https://www.washingtonpost.com/national-security/far-right-wing-and-radical-islamist-groups-are-exploiting-coronavirus-turmoil/2020/04/10/0ae0494e-79c7-11ea-9bee-c5bf9d2e3288_story.html Acesso em 06 de junho de 2021.

PIRES, Raul Braga. Um golpe dentro do golpe. Diário de Notícias. 04 de junho de 2021. Disponível em: https://www.dn.pt/opiniao/mali-um-golpe-dentro-do-golpe-13800388.html. Acesso em 3 de junho de 2021.

RAINERI, Luca; STRAZZARI, Francesco. Jihadism in Mali and the Sahel: Evolving dynamics and patterns. European Union Institute for Security Studies. Disponível em https://www.jstor.org/stable/pdf/resrep06851.pdf. Acesso em 3 de junho de 2021.

VENTURA, Luca. The World’s Richest and Poorest Countries 2021. Global Finance Magazine. 12 de maio de 2021. Disponível em: https://www.gfmag.com/global-data/economic-data/worlds-richest-and-poorest-countries. Acesso em 06 de junho de 2021

AQUILINO, Giada. Entrevista com Marco Di Liddo. Vatican News. 19 de junho de 2020. Disponível em:  https://www.vaticannews.va/pt/mundo/news/2020-06/mali-coronavirus-crise.html. Acesso em 3 de junho de 2021.

Entenda a crise política no Mali. BBC Brasil. 6 de abril de 2012. Disponível em: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2012/04/entenda-a-crise-no-mali.html. Acesso em 3 de junho de 2021.

FRANCE PRESSE. A realidade complexa por trás da guerra ao terror no Mali. Globo Mundo. 15 de janeiro de 2013. Disponível em: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2013/01/a-realidade-complexa-por-tras-da-guerra-ao-terror-no-mali.html. Acesso em 3 de junho de 2021.

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