Texto Conjuntural: Golfo da Guiné #03

A Devolução do Bronze de Benin como movimento de retomada da história

Por: João Gabriel Amorim de Paula Silva

Introdução:

De acordo com o filósofo político Norberto Bobbio (1998), em seu livro “Dicionário de Política”, a “colonização é o processo de expansão e conquista de colônias, e a submissão, por meio da força ou da superioridade econômica, de territórios habitados por povos diferentes dos da potência colonial ” (BOBBIO, p.191, 1998). Ela teve seu início no começo do século XV na Europa, com o crescimento do comércio mundial, quando Portugal e Espanha, em busca de mercadorias mais baratas e sem intermédio de italianos e árabes, iniciaram viagens marítimas e construíram bases por toda a costa africana, que serviam de armazém e locais de comércio para escravos (NEWITT, 2005).

Esse sistema de colônias, conhecido como Colonialismo, tinha como objetivo trazer principalmente matéria prima das colônias para as metrópoles, se utilizando principalmente de trabalho escravo, tanto para uso próprio tanto para se utilizar como forma de comércio com outras metrópoles. As colônias eram localizadas majoritariamente no atual sul global, em continentes como África, Américas e Ásia. 

Além disso, não eram apenas bens materiais que acabavam sendo saqueados das colônias, mas também bens culturais. A herança cultural, composta por artefatos, obras de artes, monumentos, contribui na identidade de um país, cria raízes e define um povo (ROCHA, 2012).

“acabam por contribuir na formação da identidade desse país, como também na formação de grupos, nas categorias sociais e no resgate a memória, desencadeando assim uma ligação entre o cidadão e suas raízes. Em vista disso, sua preservação torna-se fundamental no que diz respeito ao desenvolvimento cultural de um povo, uma vez que reflete em sua formação sociocultural.” (ROCHA, 2012) (5)

Como consequência disso, na tentativa de recuperar essa herança roubada, que atualmente se encontra em diversos museus por todo o mundo, principalmente em ex metrópoles, surgiu um movimento de pedido de restituição desses artigos para suas localizações e povos originais (GELMINI, 2019). Vários países seguiram esse movimento, como exemplo a Nigéria que pretende reaver os “Bronzes de Benin”, estátuas de bronze originárias do antigo Reino de Benin. Ademais, esses pedidos se configuram como uma forma de luta contra o próprio colonialismo, já que pretendem recuperar o dano causado por eles (GELMINI, 2019).

Dessa forma, esse texto irá analisar como o pedido de restituição dos Bronzes de Benin se configura numa ferramenta na luta contra o colonialismo.

Movimentos de devoluções de fragmentos históricos iniciada pela Nigéria

O Reino de Benin foi um estado localizado na costa oeste africana, onde atualmente se encontra a Nigéria, e foi fundado no final do século XIII, durando até o fim do século XIX. Era um dos maiores reinos africanos da época, principalmente devido às suas relações comerciais, e intermédio com os outros reinos (CARTWRIGHT, 2019). Devido a isso, e a sua localização litorânea, teve contato constante com os europeus, começando pelos portugueses por volta de 1480 (SANTOS, 2010).

Uma de suas características mais marcantes eram as obras de arte feitas em bronze, conhecidas como “Bronzes de Benin”, se utilizando da técnica da cera perdida, sendo considerada uma das mais bem feitas da história  (NEVAMDONSKY, 2004). Essas obras impressionaram bastante os europeus, que “ consideravam os “enfeites de tribos selvagens” como a fonte evolucionária das artes, comparando com artes de crianças” (BARKAN, 1997), uma vez que eram trabalhos metalúrgicos muito aprimorados e com diversos detalhes. Dessa forma, em 1897, quando a cidade de Benin, capital do reino, foi invadida e conquistada pelos britânicos, os “Bronzes de Benin” foram um dos itens saqueados (CARTWRIGHT, 2019).

 Atualmente, essas peças se encontram no acervo de diversos museus ao redor do mundo, tendo sua maior parte localizada no Museu Britânico em Londres. Com isso, a Comissão Nacional de Museus e Monumentos da Nigéria, na tentativa de recuperar parte do seu patrimônio cultural e histórico roubado, apresentou um pedido para que todas as peças sejam devolvidas (CNN, 2021).

Ademais, para entender de onde surgiu o movimento de restituição, é primeiramente necessário compreender o conceito de patrimônio cultural. De acordo com o Artigo 1.º da Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural:

Os monumentos. – Obras arquitectónicas, de escultura ou de pintura monumentais, elementos de estruturas de carácter arqueológico, inscrições, grutas e grupos de elementos com valor universal excepcional do ponto de vista da história, da arte ou da ciência;

Os conjuntos. – Grupos de construções isoladas ou reunidos que, em virtude da sua arquitectura, unidade ou integração na paisagem têm valor universal excepcional do ponto de vista da história, da arte ou da ciência;

Os locais de interesse. – Obras do homem, ou obras conjugadas do homem e da natureza, e as zonas, incluindo os locais de interesse arqueológico, com um valor universal excepcional do ponto de vista histórico, estético, etnológico ou antropológico (UNESCO, 1970).

Seguindo essa definição, na década de 80, a Ministra da Cultura grega da época Melina Mercouri solicitou a devolução dos Mármores do Parthenon que se localizavam no Museu Britânico, se tornando o primeiro país a fazer um pedido oficial dessa natureza  (COSTA; PIRES, 2020). Mais tarde, no Egito, em 2002, Zahi Hawass, o Secretário geral do Conselho Supremo de Antiguidades também entrou com pedidos de devolução de diversos itens, como o busto de Nefertiti, que foi negado pela Alemanha (PÍRES, 2016).

Essa decisão da Alemanha, demonstra uma preocupação de diversas nações que retém artefatos em preservação: a de que os países que estão solicitando a devolução não têm condições para conservar essas peças, por não terem políticas adequadas para sua manutenção. Como resposta a isso, o países negados se propuseram a construir museus e centros de pesquisa, para “se adequarem” a essas normas, tendo em vista que mesmo nos museus europeus houveram diversos casos de danos às peças. Além disso, outra justificativa para negarem os pedidos é a democratização do conhecimento, ao ter peças de todos os lugares no acervo de um museu, não só da história local (COSTA; PIRES, 2020).

Quando se pensa no caso da Nigéria, é possível enxergar como os países têm se adaptado para fazer esse pedido de devolução, uma vez que, está sendo construído um museu que será construído na Cidade de Benin, tendo expectativa para que fique pronto em 2022 e terá como exposição, principalmente, as peças que a Alemanha se propôs a devolver (CNN 2021).

Conclusão

Considerando os fatos apresentados, fica claro que o repatriamento de monumentos e artefatos históricos reforça a identidade própria de uma nação. Nos períodos de colonização, muito dos países foi tirado, e isso é o causador de consequências econômicas e sociais no sistema internacional de países, e a devolução da história de uma nação é essencial para a manutenção da história de um país.

Assim, como supracitado, a específica devolução do Bronze de Benin representará, para o Estado nigeriano e seu povo, uma retomada de parte da história de consolidação nacional, retirada nos tempos coloniais. Esse tipo de movimento vem sendo reforçado, principalmente por órgãos como a UNESCO, sob jurisdição de suas leis, para que, assim, o povo de nações que sofreram com esse roubo de sua história possam retomar essa memória.

Desse modo, seguindo a ideia do antropólogo Arjun Appadurai (1997), ao escrever acerca de soberania e território, a identidade de um povo é diretamente ligada ao território, e, dessa forma, na retomada de um artefato histórico de um povo, a soberania dessa nação, consequentemente, é fortalecida.

REFERÊNCIAS:

APÓS 120 anos, universidade britânica devolverá estátua de bronze à Nigéria. [S. l.], 25 mar. 2021. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/estilo/2021/03/25/apos-120-anos-universidade-britanica-devolvera-estatua-de-bronze-a-nigeria. Acesso em: 11 jun. 2021.

BARKAN, Elazar. Aesthetics and evolution: Benin art in Europe. Schorlaly Journey, [S. l.], p. 36-41, 14 jul. 1997.

BOBBIO, Norberto. Dicionário de Política. [S. l.: s. n.], 2008.

Costa, Karine Lima da. “A demanda pela restituição do patrimônio cultural através das relações entre a África e a Europa”. Locus: Revista de História, 26, n.2 (2020): 193-209

COSTA, Karine Lima da; PIRES, Kimberly Terrany Alves. Repatriação e Restituição de bens culturais: caminhos possíveis. RELACult – Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura e Sociedade, [S. l.], p. 01-12, 17 jan. 2020.

GELMINI, Bárbara Gimenes. MUSEUS, REPRESENTAÇÃO E PODER: REIVINDICAÇÃO DE ARTEFATOS CULTURAIS AFRICANOS E RESISTÊNCIA NA POLÍTICA INTERNACIONAL. 2019. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharel em Relações Internacionais) – Universidade Federal de Uberlândia, [S. l.], 2019.

KINGDOM of Benin. [S. l.], 2 abr. 2019. Disponível em: https://www.worldhistory.org/Kingdom_of_Benin/. Acesso em: 11 jun. 2021.

Museu alemão descarta devolver busto de Nefertiti ao Egito. [S. l.], 6 maio 2006. Disponível em: https://veja.abril.com.br/ciencia/museu-alemao-descarta-devolver-busto-de-nefertiti-ao-egito/. Acesso em: 11 jun. 2021.

MUSEU E COLONIALIDADE: A REPATRIAÇÃO MUSEOLÓGICA COMO INSTRUMENTO DE LUTA

NEVAMDOVSKY, Joseph. Art and Science in Benin Bronzes. Schorlaly Journey, [S. l.], p. 1,4,86-88,95-96, 20 abr. 2004.

NEWITT, M. D. D., “A history of Portuguese overseas expansion, 1400-1668”, Routledge, 2005

ROCHA, Thaisé Sá Freire. Refletindo sobre memória, identidade e patrimônio: as contribuições do programa de Educação Patrimonial do MAEA-UFJF. Encontro Regional da Anpuh- Rio Memória e Patrimônio, [S. l.], p. 01-12, 22 jul. 2012.

SANTOS, Talita Teixeira. Com a cruz e sem a espada: aspectos da relação comercial entre Portugal e o reino do Benim ao longo dos séculos XV e XVI. Encontro Regional da Anpuh- Rio Memória e Patrimônio, [s. l.], 20 jul. 2010. UNESCO. 21 de novembro de 1972. CONVENÇÃO PARA A PROTECÇÃO DO PATRIMÓNIO MUNDIAL, CULTURAL E NATURAL, [S. l.], 1972.


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