Texto Conjuntural: África Ocidental #17

Possibilidade de acordo com grupo Wagner no combate ao terrorismo pode criar instabilidade na política internacional do Mali: França x Rússia.

Por Milena Nobre Consulin.

Arquivo: Amadou Keita/ Reuters

No início da década de 1960, com o declínio da era colonial francesa no Mali, a União Soviética (URSS) deu início a sua estratégia de estabelecer alianças na África, e tinha como principal objetivo usar o continente como instrumento político no contexto da Guerra Fria com o Ocidente. Em vista disso, o bloco soviético achou um aliado ideal: o primeiro presidente do Mali, Modibo Keïta, um socialista que queria cortar relações com o antigo poder colonial. Com isso, a URSS restabeleceu a busca por recursos minerais no Mali, que até então era realizada pela França, passou a direcionar equipamentos para o país e realizar treinamentos militares. Porém, com o fim da União Soviética em 1991, a Rússia entrou em uma crise financeira, e, por consequência, manteve o seu foco nos antigos países soviéticos, onde ela tinha grande influência (RICH, 2021).

A relação entre Mali e Rússia, voltou a estabelecer laços militares apenas em 2012, quando o Mali estava em conflito contra os terroristas islâmicos que tinham assumido o controle do norte do país. Sendo assim, o governo malinês assinou um contrato para comprar 3.000 armas Kalashnikov, com o intuito de atualizar o equipamento militar russo que foi adquirido durante os anos da URSS, e, consequentemente, negociou novos acordos com Moscou (RICH, 2021). Apesar da relação entre os dois países ser inconstante, a cooperação militar entre ambos começou a ganhar destaque em 2016, quando o Mali firma um acordo com a Rússia (MUVUNYI; KANE, 2020), que entrega dois helicópteros de combate ao exército malinês, e acrescentou que futuramente outros equipamentos seriam entregues (RICH, 2021).

Em junho de 2019, os laços militares entre Mali e Rússia se intensificaram ainda mais com o pacto de defesa militar, no qual Moscou desejava ajudar a estabelecer condições de estabilidade e paz duradouras. Assim, com esses laços renovados, a França, que está presente no Mali desde 2012 com a operação militar antiterrorista, Operação Barkhane, observava com apreensão essa relação, mas optou por não se intrometer. O presidente francês, Emmanuel Macron, chegou a se pronunciar, dizendo que a Russia não é mais um “inimigo” e que a prioridade é lutar contra o terrorismo internacional (RICH, 2021). Diante disso, com esse fortalecimento da relação entre Mali e Rússia, em setembro deste ano, o governo malinês recebeu quatro helicópteros, armas e munições da Rússia, através de um acordo que foi firmado em dezembro de 2020 (PRENTICE, 2021).

Em julho deste ano (2021), após o segundo golpe de Estado no Mali em menos de um ano, a França anunciou a redução dos número das tropas presentes na região do Sahel, podendo cair de 5.000 atualmente para 2.500 ou 3.000 até 2023 (AL JAZEERA, 2021). Por conta desse anúncio, o primeiro-ministro do Mali, Choguel Kokalla Maiga, acusou a França de ter abandonado o país com a retirada de tropas do Sahel, e com isso essa decisão obrigou o governo malinês a “procurar outros parceiros”(RFI, 2021). Essa procura por outros parceiros, levou o Mali a tentar um contrato com a empresa militar privada russa.

No inicio de setembro deste ano, começaram a surgir noticias que o governo do Mali estava negociando com a empresa militar privada russa denominada Grupo Wagner, para treinar tropas malinesas, fornecer segurança restrita e realizar operações de combate ao terrorismo por 6 bilhões de francos ao mês. Esse possível acordo despertou a comunidade internacional, principalmente, a França que está há nove anos no Mali lutando contra o terrorismo na região do Sahel. Diplomatas franceses alertaram que a contratação do Grupo poderia colocar em risco os financiamentos dos parceiros internacionais do Mali e as missões de treinamento que foram responsáveis por ajudar a reconstruir o exército malinês (FRANCE 24, 2021). O Ministro da Europa e Relações Exteriores da França, Jean-Yves Le Drian, pontuou que o Grupo Wagner, em vários países, cometeu abusos e todo tipo de violações que não levaram a qualquer solução, sugerindo, assim, uma possível retirada de todas as tropas francesas do Mali, caso esse acordo de contratação do Grupo Wagner seja firmado (RICH, 2021), o que então poderia levar a isolar o país internacionalmente.

Grupo Wagner 

Imagem via redação OD Europe.

Para entender o que é o Grupo Wagner, é necessário saber que “não há evidências de que esse grupo tenha sido oficialmente registrado na Rússia ou em qualquer outro lugar, embora um site israelense que frequentemente relata rumores de inteligência global afirme que Wagner está registrado na Argentina.” (MARTEN, 2019). Por ser um Grupo secreto, não há muitas informações sobre sua formação e suas atividades, mas acredita-se que é financiado por Yevgeny Prigozhin, um oligarca russo que tem muito proximidade com o Kremlin, e que por isso ficou conhecido como o “chef” do presidente Vladimir Putin (HU, 2021). 

O Grupo Wagner realizou sua primeira operação na península da Ucrânia em 2014, onde ajudou os militares russos na anexação da Crimeia. Desde então, o grupo se fez presente em conflitos na Ucrânia, Síria, Sudão e na República Centro-Africana, nos quais as forças militares russas também estiveram presentes. Sendo assim, a sua participação em tais acontecimentos, pressupõe que Wagner, foi útil para o Estado russo da mesma forma que as empresas ou empreiteiros militares privados (PMCs na sigla em inglês) são usadas por muitos Estados poderosos, para economizar custos e evitar baixas nas forças militares (MARTEN, 2019). 

Considerações

Tendo em vista a luta do governo malinês contra uma insurgência no país desde 2012, no qual sofreu três golpes de Estado em nove anos. A tentativa de contratação do Grupo Wagner e o fortalecimento das relações com a Rússia, pode vir a estabelecer uma instabilidade e até um rompimento das relações do Mali com a França, que está presente no país desde 2013 com a operação antiterrorismo. Toda essa questão, acaba jogando a França e a Rússia uma contra a outra, no entanto, já há um planejamento da retirada gradual das tropas francesas até 2023, porém, ao mesmo tempo, a Rússia não tem nada a ganhar lutando contra terroristas na região do Sahel. Dessa forma, ainda está muito incerto o futuro do que irá acontecer com tais relações, mas, sabe-se que existe um sonho antigo no Mali por parte da população, de ver o país romper a aliança com a França e cooperar com a Rússia. Esse sonho tem como intuito restabelecer a relação que o país tinha com a URSS, principalmente, no nível de cooperação militar. Inclusive, de vez em quando, são realizadas manifestações públicas pedindo a saída das tropas francesas, e, a favor da intervenção militar russa. 

Referências

AL JAZEERA. Mali approached Russian military company for help: Larov. 25 set. 2021. Disponível em: <https://www.aljazeera.com/news/2021/9/25/mali-approached-russian-private-companies-moscow-not-involved>. Acesso em: 14 dez. 2021.

FRANCE 24. Reports of Russian mercenary deal in Mali trigger French alarm. 14 set. 2021. Disponível em: <https://www.france24.com/en/africa/20210914-reports-of-russia-mercenary-deal-in-mali-alarm-france>. Acesso em: 14 dez. 2021.

HU, Caitlin. Mali seeks to hire Russian mercenaries, says Russian Foreign Minister. CNN, 26 set. 2021. Disponível em: <https://edition.cnn.com/2021/09/26/world/mali-russian-mercenaries-intl/index.html>. Acesso em: 14 dez. 2021.

MARTEN, Kimberly. Russia’s use of semi-state security forces: the case of the Wagner Group. 26 mar. 2019. Disponível em: <https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/1060586X.2019.1591142>. Acesso em: 14 dez. 2021.

MUVUNYI, Fred; KANE, Mahamadou. Estará a Rússia por trás do golpe de Estado no Mali? DW, 27 ago. 2020. Diponível em: <https://www.dw.com/pt-002/estar%C3%A1-a-r%C3%BAssia-por-tr%C3%A1s-do-golpe-de-estado-no-mali/a-54711585>. Acesso em: 14 dez. 2021.

PRENTICE, Alessandra. Mali receives four helicopters and weapons from Russia. Reuters, 1 out. 2021. Disponível em: <https://www.reuters.com/world/africa/mali-receives-four-helicopters-weapons-russia-2021-10-01/>. Acesso em: 14 dez. 2021.

RFI. Mali acusa a França de abandono. 26 set. 2021.Disponível em: <https://www.rfi.fr/pt/%C3%A1frica/20210926-mali-acusa-a-fran%C3%A7a-de-abandono>. Acesso em: 14 dez. 2021. 

RICH, David. France and Russia make a stand over which country will have the greater influence in Mali. France 24, 18 set. 2021. Disponível em: <https://www.france24.com/en/africa/20210918-in-mali-france-and-russia-are-facing-off-over-who-will-have-the-greater-influence-in-the-country>. Acesso em: 14 dez. 2021.

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