Texto Conjuntural: África Ocidental #03 – Violência em Burkina Faso: a amostra da intrincada questão de segurança no Sahel

Pedro Aluízio Resende Leão

 

A manhã do último dia 2 de março trouxe à Ouagadougou o terceiro ataque terrorista em dois anos. Ouagadougou, a capital de Burkina Faso, país com pouco mais de 18 milhões de habitantes (WORLD BANK, 2018) e localizado na África Ocidental, foi alvo de ataques que deixaram oito soldados mortos e ao menos 80 pessoas feriadas. Além de causar o terror instantâneo na população, a violência, categorizada como um “ataque jihadista” pelo ministro dos assuntos estrangeiros francês, Jean-Yves Le Drian, ainda é capaz de evocar análises sobre o verdadeiro estado de segurança que apresenta Burkina-Faso e toda a região do Sahel africano (FRANCE DIPLOMATIE, 2018).

A simbologia dos locais dos ataques é o fator que mais incita a necessidade de um olhar mais profundo sob o delineamento das situações, processos e atores da intrincada questão securitária existente em Burkina Faso. Os locais visados para o ataque do grupo, aparentemente ligado à Al-Qaeda na região, foram o Quartel General das forças armadas burquinenses e a embaixada francesa, além do Instituto Francês. Em linguagem objetiva, o Estado Burquinense e o Estado Francês.

O ataque coordenado a lugares específicos mostra claramente que as forças militarizadas extra estatais burquinenses se opõem aos governos locais e à iniciativa do governo francês, que depois da posse de Emmanuel Macron, tem intensificado a cooperação do âmbito da segurança na região, com operações militares (GLOBAL OBSERVATORY, 2018). A operação conjunta entre o governo francês e o grupo do G5 do Sahel (Burkina Faso, Mauritânia, Mali, Niger e Chade), nomeada Opération Barkhane, tem como objetivo “favorecer a apropriação da luta contra os grupos armados terroristas pelos países parceiros do G5 Sahel” e de “permitir aos Estados parceiros de adquirir a capacidade de assegurar sua segurança de forma autônoma” (MINISTÈRE DES ARMÉES, 2017, p. 3, tradução nossa).

A operação é parte das ações do governo francês para a região outrora coloniais e que visa acompanhar e orientar os exércitos locais para o combate aos grupos considerados terroristas. Em Burkina Faso, estes grupos se localizam na parte norte do país, que é a parte mais desértica, pauperizada e de difícil acesso. Hoje, a operação conta com um contingente de 4000 e 5000 homens, distribuídos nos países do G5 Sahel. Além do foco militar, ainda é apontada a cooperação direta no âmbito social (acesso à água, energia a serviços de saúde e educação), envolvendo a Agência Francesa de Desenvolvimento (MINISTÈRE DES ARMÉES, 2017)

Figura 1: Operação Barkhane no G5 Sahel

 

Além das operações conjuntas ao governo francês, o atentado em Ouagadougou também mostra que os grupos buscam fazer frente ao grupo G5 Sahel, que também foi criado para que os países em questão desenvolvam ações militares próprias. Os principais objetivos da política conjunta são de garantir condições de desenvolvimento e segurança, aliados pelo exercício da boa governança através da democracia e oferecer um sistema de cooperação regional mutualmente benéfico (SECRETARIAT PERMANENT DU G5 SAHEL, 2018).

Contudo, neste ponto de nossa análise chegamos a um raciocínio quase paradoxal: mesmo com as ações militares coordenadas entre os países do Sahel e o Sahel-França, o atentado aconteceu no centro da capital burquinense, a poucos metros do gabinete do primeiro ministro. A partir disto, vê-se que ou as ações militares estão sendo insuficientes para a conjuntura securitária do país ou que a situação socioeconômica e política da região são mais complexas do que o previsto.

A situação de Burkina Faso é de tal forma multifacetada que mesmo Emmanuel Macron foi criticado pelos burquinenses ao viajar ao país, em novembro de 2017, quando prometeu o aumento da ajuda de desenvolvimento nas áreas educacionais, energéticas, transporte, dentre outras. Na ocasião aconteceram protestos e arremessos de pedras. O principal motivo das críticas: “inabilidade dos aliados franceses em combater a corrupção e as más práticas do governo burquinense” (BENEDIKTER e OUEDRAOGO, 2018, online).

Como apontam Benedikter e Oudraogo (2018), as questões socioeconômicas também são fatores que fomentam enormemente as práticas violentas. Principalmente no norte do país, região desertificada, as condições educacionais, sanitárias e de empregabilidade são verdadeiros desafios e combatê-los é um ponto fundamental na luta contra a violência em um dos países mais pobres do mundo (HUMAN DEVELOPMENT REPORTS, 2016).

Por fim, a melhor compreensão que se pode tirar do recente atentado em Ouagadougou é que a situação de Burkina Faso é ainda mais complexa do que a presença de um entrave securitário ou militar, mas toca diretamente no âmbito estrutural da sociedade: as condições políticas, econômicas e sociais.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BBC. Burkina faso attack: french embassy targeted in ouagadougou. Disponível em: <http://www.bbc.com/news/world-africa-43257453&gt;. Acesso em: 05 mar. 2018.

BENEDIKTER, Roland e OUEDRAOGO, Ismaila. Burkina Faso and a Strategy to Counter Terrorism in West Africa. IPI Global Observatory, 2018. Disponível em: < https://theglobalobservatory.org/2018/01/burkina-faso-strategy-to-counter-terrorism-west-africa/ >. Acesso em: 05 mar. 2017.

FRANCE DIPLOMATIE. Burkina faso – déclaration de jean-yves le drian, ministre de l’europe et des affaires étrangères (2 mars 2018). Disponível em: <https://www.diplomatie.gouv.fr/fr/dossiers-pays/burkina-faso/evenements/article/burkina-faso-declaration-de-jean-yves-le-drian-02-03-18&gt;. Acesso em: 05 mar. 2018.

JEUNE AFRIQUE. Burkina : ce que l’on sait des attaques sur l’état-major et l’ambassade de france. Disponível em: <http://www.jeuneafrique.com/538941/politique/burkina-ce-que-lon-sait-des-attaques-sur-letat-major-et-lambassade-de-france/&gt;. Acesso em: 05 mar. 2018.

MINISTÈRE DES ARMÉES. Dossier de presse: Opération Barkhane. Disponível em: <file:///C:/Users/pedro/Downloads/DP-BARKHANE-0118.pdf>. Acesso em: 05 mar de 2018

SECRETARIAT PERMANENT DU G5 SAHEL. LE G5 SAHEL. Disponível em: <http://www.g5sahel.org/index.php/qui-sommes-nous/le-g5-sahel&gt;. Acesso em: 05 mar. 2018.

WORLD BANK. Burkina-faso. Disponível em: <https://data.worldbank.org/country/burkina-faso?view=chart&gt;. Acesso em: 05 mar. 2018.


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